Reflexão do dia 13 de dezembro
PENSANDO NOS OUTROS
Clique para ver a reflexão na íntegra
Clique aqui para ingressar no aabr

Uma Luz no fim do túnel

Foi naquela tarde de verão numa roda de amigos que eu tomei meu primeiro gole. Tinha 14 anos e mesmo não gostando do gosto da cachaça ingeri bem mais álcool que os outros cinco ou seis colegas que participavam daquela rodinha de fogo sentindo-me deveras confortável. Depois fiquei sabendo que os únicos que não passaram mal fui eu e um outro, que futuramente tornou-se um dos meus parceiros inseparáveis de copo, mas que hoje já não vive fisica-mente entre nós, pois morreu prematuramente pela ingestão  exagerada da bebida. Os demais, por não terem - hoje eu sei - a predisposição ao alcoolismo, não passaram da primeira ressaca e nunca mais beberam ou até hoje bebem socialmente.

A partir daquele dia, descobri que o álcool elevava meu astral trazendo um prazer incontestável, aumentando minha felicidade nos momentos de alegrias já exultantes e me dando confiança nas horas de dificuldades, tão normais em toda adolescência. Esquecia a timidez, possuía um círculo enorme de amizades e por outro lado, era respeitado pelas pessoas mais temidas do bairro. Se bem que naquela época, fisicamente, mentalmente e espiritualmente ainda estava bem, pois praticava esportes, tinha um bom emprego, frequentava a minha religião de opção, estava sempre em paz com a família e amigos. Mas, tudo sob o efeito da bebida. Tinha nas mãos os elementos essenciais que norteiam o ser humano para estar em harmonia com a vida, porém, havia um problema: a bebida. Progressivamente ela foi me envolvendo a ponto de ser a única conselheira para as minhas decisões e uma delas foi optar pelo bar aos estudos.

Veio meu casamento, que no início me fez desfrutar de um aparente controle sobre a bebida. Vieram os filhos e apesar de amá-los tanto e achar que era bom pai, hoje também sei que não o fui. Quando as portas do boteco abriam, fechavam-se as portas da minha casa resultando nas tantas vezes que esqueci a minha condição de chefe de família. Cada vez mais fui sofrendo os efeitos da instabilidade emocional do dia seguinte quando o sentimento de culpa me assolava. Esvaiam-se minhas qualidades, ficando cada vez mais nítida a minha dupla personalidade. Por isso eu bebia mais e mais para esquecer, para fugir não sabia direito de quê e ao mesmo tempo encontrar uma solução para os meus problemas, que na minha cabeça eram os outros que causavam.

Então eu magoava minha esposa, meus filhos e demais pessoas que realmente me amavam e eu a elas. Os bares da vida se tomaram minha obsessão e por mais que tentasse frear aquele feitiço de nada adiantavam as promessas para largar o "vício", porque a bebida sorrateiramente fazia com que o torpe desejo chegasse aos meus ouvidos em forma de sussurros:"tome só mais es-sa, um gole apenas, só hoje...”

A senha alcoólica do meu subconsciente era: "você bebe socialmente, certo?"

Sim, essa era a senha para a entrada nos botequins e mais uma vez eu caia na armadilha dizendo comigo mesmo: "quando eu quiser, eu paro!".

Pedia a Deus uma luz, mas nem com o fim de um casamento de onze anos e a perda de um emprego de dezoito anos eu admiti minha derrota.

No final de 2003 sentado em minha cama, alguma coisa mudou no meu ínti-mo. Pensei em mim e em meus filhos de uma maneira como jamais havia pensado e só quem teve um despertar espiritual pode definir com aproximada clareza o que eu senti. Uma esperança, uma espécie de conforto brotou do fundo da minha alma. Hoje sei que Deus se manifestou em mim, ali, naquele momento, devolvendo-me a fé que no tempo se perdera e, apesar da com-pulsão pela falta da bebida, que por tantos anos me acompanhara chegando a ludibriar até o meu instinto de sobrevivência fiquei por alguns dias abstêmio.

A pedido de minha mãe, numa noite de luar, chegaram à minha casa os men-sageiros de Luz de Alcoólicos Anônimos, que para a minha surpresa eram conhecidos meus da ativa e estavam sóbrios há muitas 24 horas. Foi nesta abordagem, que com total convicção admiti minha impotência alcoólica e a perda do domínio sobre minha vida. Reconheci finalmente que sozinho eu não conseguiria nada e aceitei assistir à primeira reunião.

Foi lá no Grupo que aprendi que não bastava só parar de beber, mas que tam-bém deveria estar disposto a reparar e modificar minhas atitudes negativas do passado. Era a luz no final do túnel que eu procurava para meu renascimento.

E assim vou vivendo... Evitando o 1º gole só por hoje; estou sóbrio aprendendo a viver à maneira de A.A. sugerida nos Doze Passos e recuperando o respeito das pessoas que eu magoei.

De 24 em 24 horas pratico os princípios de A.A. em todas as minhas atividades agradecendo a Deus a benção por ser agora um de seus escolhidos para levar a mesma mensagem que me resgatou do labirinto da negação e da incoerência, causados pela minha doença.

Muitas 24 horas de serena sobriedade e que Deus nos abençoe.

Fonte: Revista Vivência nº 109

 

Alcoólicos Anônimos do Brasil - Todos os direitos reservados 2019