Reflexão do dia 20 de abril
AUTOEXAME
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Dr. W. W. Bauer

Membro da Associação Médica Americana

Como um autofalante ambulante, tenho enfrentado inúmeros auditórios. Um de meus funcionários disse-me há pouco tempo que eu tinha feito mais de mil discursos, o que é um magnífico tributo á paciência dos americanos. Geralmente não tenho receio de falar em público, mas tive um convite há mais ou menos um ano, quando a A.M.A. se reuniu em São Francisco para falar numa reunião aberta de A.A., no centro dessa cidade, e devo confessar que nunca tive tanto medo em toda a minha vida na expectativa dessa reunião, porque não via nenhuma boa razão por que deveria ser apresentado ali para falar a vocês AAs.

Lembrei-me do jovem reitor da Igreja Episcopal a qual pertenço. Ele foi consagrado Bispo, o que naturalmente foi um grande evento na vida desse jovem clérigo episcopal. Depois da solene cerimônia de consagração, houve um banquete e a mesa dos oradores foi colocada numa plataforma para que todos pudessem ver o novo Bispo. Antes de sua apresentação, fizeram-lhe grandes elogios, e quando chegou sua vez de responder, ele disse: "Eu me sinto como o cavalheiro ligeiramente inebriado, numa noite de luar, que caminhou até o meio da ponte olhou para a água e ao ver a lua refletida nela, sacudiu a cabeça e disse para si mesmo: "Diabo, como vim parar aqui em cima?"

Não me sinto tão apreensivo neste momento, porque aquela audiência de AAs provou ser igual às demais; foram muito atenciosos e amáveis com o orador; ouviram-me com cortesia, depois tiveram a amabilidade de dizer que tinham gostado. Mas a razão pela qual me sinto em casa neste momento é devido ao que aconteceu com minha esposa que me acompanhava nesse dia. Depois da reunião, ficamos de pé junto a um grupo de AAs e de convidados, suponho, e como estávamos batendo papo, um cavalheiro uniu-se ao grupo e foi apresentado à roda. Quando viu minha esposa, olhou para ela e atenciosamente lhe perguntou: "Onde você tem estado? Há dois anos você não freqüenta uma reunião."

Isso foi muito engraçado, porque minha esposa é praticamente uma abstêmia.

Minha experiência com A.A. vai desde a época em que costumava transmitir programas radiofônicos na cadeia NBC, semanalmente, e tive o privilegio de colocar no ar um programa sob orientação e direção de um dos membros de A.A. da área de Chicago. Desde essa época, comecei a entender um pouco o que era A.A. Naturalmente, uma pessoa como eu nunca poderia entender isso completamente. Não sou psiquiatra como o Dr. Tiebout, de maneira que meu conhecimento prático é somente aquele de clínica médica. Não sou membro de A.A., portanto não tenho a experiência que vocês têm e afirmo com toda a sinceridade que me sinto muito humilde nessa posição, perante um grupo de pessoas como vocês.

Tudo o que posso fazer é tentar expressar-lhes o sentimento da classe médica, um sentimento que vem crescendo permanentemente através do desenvolvimento da organização de vocês e que agora, acredito, pode-se dizer que está totalmente cristalizado - um sentimento de que A.A. tem uma parte muito grande e importante nas respostas que agora temos para o problema do alcoolismo.

Sabemos perfeitamente que o alcoólico é uma pessoa doente. Essa é uma frase muito simples. É hoje em dia uma frase aceita, e nós ainda sabemos que não faz muito tempo o alcoólico era olhado como um estorvo, uma peste, uma pessoa que poderia mudar de repente para melhor, se realmente quisesse. Era olhado como um ser mimado e como uma pessoa inútil. Hoje em dia sabemos que é um indivíduo doente, numa área onde nosso entendimento talvez seja menor que o de qualquer setor da medicina, ou seja, a doença das emoções.

Estamos hoje em dia, em alguns aspectos, na mesma posição com relação à doença emocional que estávamos há cinqüenta anos com referencia à tuberculose. Minha memória não vai tão longe. Há somente trinta e nove anos saí da faculdade de medicina, mas pela literatura anterior sei que na mente de muitas pessoas persistia a idéia de que a tuberculose, uma doença contagiosa que ataca as pessoas sem que exista culpa por parte delas, era uma desgraça. As famílias escondiam frequentemente a pessoa tuberculosa, assim como hoje em dia escondem o alcoólico. Posso me lembrar muito bem, e assim podem todos o médicos que estão nesta reunião, quanto tínhamos a mesma atitude com respeito ao câncer. O câncer era visto como um estigma, uma maldição, algo para ser escondido, porque era um reflexo sobre a família. Hoje em dia sabemos que o câncer é uma calamidade, e estamos começando a entender que devemos adotar a mesma atitude com relação às doenças mentais e emocionais que temos lenta e penosamente adotado com referência à tuberculose e câncer. A doença das emoções não é alguma coisa de que se possa envergonhar mais do que a doença do corpo. Não deveríamos mais hesitar em consultar um psiquiatra, a não ser pela falta desses importantes especialistas, da mesma forma que não deveríamos hesitar em consultar um ortopedista por um problema no pé.

Há muito que ver nas atitudes. A estrela cinematográfica do passado, Clara Bow, disse certa vez que se ela dissesse que seus pés estavam doendo, obteria a compreensão de todos; se dissesse: "Meus pés estão me matando" ririam. Tudo é questão de atitude, e devemos aprender a consultar o psiquiatra com a mesma atitude que o fazemos com qualquer outro especialista, sem o sentimento de vergonha, sem o sentimento de que é um estigma. Há certas frases que os médicos são obrigados a usar, para que possamos aprender a entender, aceitar e aplicar.

Temos que aprender com a medicina, e o público como um todo vai ter que aprender com as tremendas diferenças individuais que há entre as pessoas. Diferenças de resistência, por exemplo. Algumas pessoas se cansam mais facilmente do que outras. Existem pessoas que são vítimas de infecção mais facilmente por causa da diferença de metabolismo. Há diferenças marcantes, como vocês sabem, na inteligência das pessoas e precisamos também aprender a reconhecer as diferenças na estabilidade emocional. Há pessoas que podem "suportar" mais do que outras. Ser capaz de suportar é geralmente visto como uma virtude, e assim é maravilhoso quando alguém tem uma virtude. A coragem também é uma coisa admirável, e mesmo assim quando se pergunta a  eminentes soldados e líderes militares se nunca tiveram medo no campo de batalha, a resposta, se forem honestos, será realmente: "Naturalmente que sempre tenho medo no campo de batalha. Eu seria um idiota se não tivesse. Há perigo aí."

Devemos também aprender que há situações de batalha, para nós, nas quais devemos ter medo, alguns mais que outros. Não é grande mérito para mim, como indivíduo, não ser tentado pelo álcool. Tenho minhas próprias tentações. Sou tentado pelo tabaco, sou tentando pela comida e há justamente tanta intemperança em ceder a essas tentações como há para alguns de vocês e muitos outros, que são ou foram tentados pelo álcool.

Por isso, nós da classe médica, estamos satisfeitos por colaborar com A.A. Precisamos da colaboração de vocês, assim como precisam da nossa, para resolver esse problema que é o alcoolismo. Vocês têm chegado, por seus próprios caminhos, a algumas das mesmas soluções que a medicina chegou com relação ao tratamento do alcoolismo. Temos aprendido, por exemplo, como vocês também aprenderam, o valor da terapia de grupo em muitas situações. Suponho que a primeira indicação da terapia de grupo na medicina, pelo menos na medicina moderna, foram as aulas para futuras mães, que muitas jovens grávidas tinham, onde aprendiam tudo a respeito do que estava acontecendo com elas e por que e o que fazer a esse respeito.

Então a idéia foi difundida, e um médico muito corajoso, que foi quase ridicularizado na profissão, achou que não havia nenhuma boa razão para que um homem não devesse aprender a fazer uma mamadeira e a trocar uma fralda. Assim houve aulas para futuros pais. E naquela ocasião descobrimos que a terapia de grupo era um fator poderoso no campo da saúde mental e emocional. Em algumas de nossas instituições para doentes mentais, o recurso de representar um papel (psicodrama) é usado para permitir às pessoas que expressem sua hostilidade latente, que se não puder ser de forma construtiva, pelo menos que seja de forma inofensiva.

Temos aplicado a terapia de grupo até numa de nossas maiores tentações, o campo da alimentação, e tem sido seriamente sugerido que se organizem "Obesos Anônimos" ou algo parecido. Não gostaria de ver A.A. ser sempre imitado, e muito menos com respeito a assuntos de menos importância. Mas o fato é que pessoas com excesso de peso podem fazer uma dieta mais alegremente em grupos do que sozinhas. Li num artigo do boletim de A.A., algo a respeito de um membro solitário, e posso imaginar o quanto deve ser mais difícil para membros solitários do que para seus grupos, porque eles não têm o apoio direto nem a simpatia dos outros que conhecem seu problema.

Na medicina, temos aprendido muito a respeito do tratamento físico do alcoólico. Temos aprendido acerca da nutrição e a importância de uma dieta totalmente voltada para vitaminas e sais minerais. Não as consideramos como curas para o alcoolismo, porque não acreditamos que a falta de vitaminas seja a causa do alcoolismo; isso é simples demais. Mas sabemos que essas coisas são necessárias no tratamento e reabilitação física do alcoólico. Sabemos também que vários tipos de desintoxicação e outras formas de terapia têm falhado. Não são suficientes por si mesmos. Precisamos de algo mais.

A exortação religiosa também tem falhado, como os conselhos de pessoas que não entendem o problema, que simplificam muito, pessoas que vêem o alcoólico como uma pessoa perpetuamente ansiosa, com uma grande compulsão pelo álcool, pessoas que não sabem que muitos alcoólicos odeiam o álcool mais do que o veneno, quando estão sóbrios, porque sabem perfeitamente que ele é um veneno.

Aprendemos a futilidade das promessas a longo prazo, que são muito difíceis de ser mantidas.

Vocês nos têm ensinado todas essas coisas, mais do que qualquer outro grupo que eu conheça. Tenho muitos amigos em A.A. Acho que tenho mais amigos em A.A. do que possa imaginar, talvez porque alguns de meus amigos não tenham ainda me contado que são AAs. Que eu me lembre, depois de alguns programas de rádio que fizemos, fui parado na rua da cidade onde resido, perto de Chicago, por pessoas que eu conhecia há muitos anos que vieram expressar seus agradecimentos pelos programas radiofônicos. Fiquei bastante surpreso com essas pessoas, mas à medida que o tempo foi passando, a surpresa foi diminuindo, à medida que via a eficiência do trabalho de vocês, com um homem de grande talento, meu amigo íntimo, que trabalhava numa profissão criativa, a qual não irei revelar porque isso possivelmente o identificaria, um homem que era quase um gênio. O álcool traiçoeiramente invadiu sua carreira, seus relacionamentos com os familiares e sua posição na comunidade. Vi sua esposa acobertando-o quando ela descrevia suas freqüentes doenças, que aos poucos viemos a saber que eram doenças, mas não do tipo que ela queria nos fazer acreditar; presenciei quando estava a ponto de perder o emprego. Acompanhei a sua rendição quando foi despedido e completamente desesperado dizia:

"Não posso sair dessa sozinho. Preciso de alguém que me ajude"

E com a ajuda espiritual de seu clérigo e de A.A., esse homem voltou a uma posição de comando, em seu campo de trabalho, um homem que está hoje sóbrio e tão bem como qualquer pessoa neste auditório. Tenho fé de que ele vai continuar assim.

Esse é somente um dos muitos que tenho visto, e que outros médicos também têm visto.

Assim, mais e mais estamos começando a perceber que vocês têm em seus princípios – rendição, humildade, procura de orientação divina, sobriedade dia após dia e acima de tudo anonimato - a segurança de que ninguém vai ficar famoso como líder de Alcoólicos Anônimos. Esses princípios são todos de vital importância. Vocês que têm visto o que o álcool pode fazer em suas vidas estão trabalhando unidos, em grupos e individualmente, bem como causando o maior impacto sobre o problema do álcool, jamais conseguido antes, Precisamos desse impacto no mundo de hoje, um mundo no qual o medo domina.

O alcoolismo é uma fuga - de quê?

Bem, de situações intoleráveis em sua própria vida, e o mundo inteiro esta numa situação intolerável hoje em dia. Não é de admirar que o alcoolismo cresça. Não somente isso, mas estamos numa situação social, onde as tentações alcoólicas estão por toda a parte. Acredito que esta seja a única convenção, com exceção talvez das convenções estritamente religiosas, e nem todas elas, onde realmente não há consumo de álcool. Não sei se vocês são bem recebidos nas cidades onde há convenção. Certamente não fazem um grande favor aos bares.  

Pessoas, que na época em que eu era criança, teriam olhado de esguelha para alguém que tomasse uma bebida, estão agora servindo socialmente aperitivos em suas casas. Nossos filhos estão crescendo num ambiente inteiramente alcoólico. Por cartazes, radio, televisão, em anúncios de todos os tipos, as qualidades das bebidas alcoólicas estão sendo exaltadas. Juntemos esses dois fatores - um mundo vivendo sob o domínio do medo e um mundo cheio de álcool e sugestões em relação ao álcool – e vocês podem ver como é importante que as pessoas percebam o que na verdade o alcoolismo é: uma doença emocional profunda que deve ser tratada de acordo com os princípios psicossomáticos. A palavra "psicossomático" simplesmente significa corpo e alma. Hoje em dia ouvimos falar muito a respeito da medicina psicossomática, mas permita-me dizer a vocês que qualquer médico que realmente seja digno desse título, em todos os tempos, tem praticado a medicina psicossomática.

O Sr. William Osler disse: "Não é tão importante saber que doença o paciente tem, mas que tipo de paciente tem a doença." Essa é uma das coisas que vocês de Alcoólicos Anônimos tem percebido.

Por isso vim aqui e estou muito agradecido por terem me convidado. Vim, como disse, para me colocar diante de vocês e admirar suas grandes realizações, bem como dizer que nós da classe médica temos a confiança de que tais realizações crescerão mais e de forma significativa, à medida que o tempo passar, porque vocês se propuseram a crescer, têm se mantido unidos e estão oferecendo ajuda, estendendo a mão àqueles que dela precisam.

Não sou psiquiatra, mas com fé digo a vocês, como tenho dito a milhares de pacientes, que a coisa de que mais precisamos neste mundo de hoje é a tranquilidade da mente. Vários nomes foram dados para essa expressão. Alguns livros a esse respeito têm sido muito populares.

Alguns chamam de poder do pensamento positivo, outros de paz do espírito, ou então de paz da alma, mas estou inclinado a concordar com Billy Graham e chamar esse estado mental de paz com Deus. Essas são as coisas de que precisamos.

E uma organização como a de vocês, num mundo que parece ter ido a um extremo materialismo, nos dá a coragem para acreditar que ainda há esperança, que ainda há idealismo e que vamos superar muitos, muitos de nossos problemas, dos quais um dos mais sérios é o alcoolismo.

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