Reflexão do dia 20 de abril
AUTOEXAME
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O Primeiro Amigo de A.A.

O primeiro amigo de A.A., no campo da medicina, Dr. William Duncan Silkworth.

Esse foi o médico que tratou de Bill no princípio e esteve com ele durante sua experiência espiritual no Hospital Towns. Tinha mais fé em nossa Irmandade do que nós mesmos tínhamos no começo. Ele nos encorajou e nos apoiou publicamente, quando éramos quase desconhecidos. Ele nos proporcionou o conhecimento a respeito da natureza de nossa doença, com estas palavras: "alergia física mais obsessão mental".

Sua contribuição foi indispensável para o desenvolvimento do Programa de recuperação de A.A.

Durante sua vida toda, "o bondoso médico baixinho" tratou de 40.000 alcoólicos.

O Dr, Silkworth simboliza a grande compreensão e ajuda que Alcoólicos Anônimos tem recebido da classe médica.

Escreveu a declaração e carta a seguir que constam em nosso primeiro livro publicado, de cujo título foi extraído o nome da nossa Irmandade.

A Quem Possa Interessar:

Especializei-me no tratamento do alcoolismo há muitos anos. Em fins de 1934, atendi um paciente que, embora tivesse sido um competente e bem sucedido homem de negócios, era um alcoólico de uma espécie que eu viera a considerar sem esperanças.

Durante seu terceiro tratamento, ocorreram-lhe algumas idéias a respeito de um possível método de recuperação. Como parte de sua reabilitação, ele começou a apresentar seus conceitos a outros alcoólicos, convencendo-os de que deveriam fazer o mesmo com outros mais.

Isto se tornou a base de uma sociedade, em rápida expansão, destes homens e de suas famílias. Este homem, e mais de cem outros, parece terem-se recuperado. Conheço pessoalmente um grande número de casos do mesmo tipo, com os quais outros métodos haviam falhado por completo.

Os fatos acima parecem ter extrema importância para a medicina. Devido às extraordinárias possibilidades de rápida expansão do trabalho dessas pessoas, isto pode caracterizar o início de uma nova era nos anais do alcoolismo. Estes homens podem perfeitamente ter um remédio para milhares de situações semelhantes.

Pode-se confiar inteiramente em tudo o que eles dizem a respeito de si mesmos.

Foi, portanto, com real satisfação que recebi o convite para contribuir com algumas palavras a respeito de um assunto que é, nestas páginas, abordado com riqueza de detalhes.

Nós, médicos, percebemos há bastante tempo que algum tipo de psicologia moral era de extrema importância para os alcoólicos, mas sua aplicação apresentava dificuldades que ultrapassavam nossa compreensão. Entre nossos padrões ultramodernos e nosso enfoque científico diante de tudo, talvez não estejamos bem equipados para aplicar as forças do bem que subsistem fora de nosso conhecimento sintético.

Há vários anos, um dos principais colaboradores deste livro esteve sob nossos cuidados neste hospital e, durante sua estada, ocorreram-lhe algumas idéias que ele pôs imediatamente em prática.

Mais tarde, solicitou autorização para contar sua história para outros pacientes aqui internados e, com certa apreensão, nós a concedemos. Os casos que acompanhamos foram bastante interessantes; na verdade, muitos foram surpreendentes. À medida que passamos a conhecê-los, a falta de egoísmo desses homens, a total ausência de motivos interesseiros e seu espírito comunitário são realmente inspiradores para alguém que trabalhou exaustivamente e por muito tempo no campo do alcoolismo. Eles acreditam em si mesmos e, mais ainda, no Poder que arranca os alcoólicos crônicos das garras da morte.

Não há dúvidas de que um alcoólico precisa ser libertado de sua compulsão pelo álcool e, com freqüência, isto requer um indiscutível tratamento hospitalar antes que medidas psicológicas possam ser inteiramente proveitosas. Acreditamos, e assim sugerimos há alguns anos, que a ação do álcool sobre estes alcoólicos crônicos é a manifestação de uma alergia, que o fenômeno, da compulsão limita-se a esta categoria de pessoas jamais acontece com o bebedor moderado médio. Essas pessoas alérgicas nunca podem, sem correr riscos, consumir álcool de qualquer espécie. E, tendo criado o hábito e descoberto que não conseguem abandoná-lo, tendo perdido sua autoconfiança, sua fé nas coisas humanas, seus problemas se avolumam e sua resolução passa a ser extremamente difícil.

Apelos emocionais superficiais raramente dão resultado. A mensagem capaz de interessar e influenciar os alcoólicos precisa ter profundidade e peso. Em praticamente todos os casos, seus ideais devem ter como base um poder superior a eles mesmos, caso desejem reconstruir suas vidas.

Se alguém considerar que, para psiquiatras na direção de um hospital para alcoólicos, parecemos um tanto sentimentais, que venha por algum tempo ficar ao nosso lado na frente de combate, observar as tragédias, as esposas desesperadas, os filhos pequenos.

Deixe que a solução destes problemas se torne parte de seu trabalho diário, e até mesmo de suas horas de sono, e o maior dos céticos não se surpreenderá com o fato de termos aceitado e encorajado este movimento. Estamos certos de que, após vários anos de experiência, nunca encontramos algo que tenha contribuído mais para a reabilitação destas pessoas do que o movimento altruísta que hoje se desenvolve entre eles.

Homens e mulheres bebem, essencialmente, por gostarem do efeito produzido pelo álcool. A sensação é tão ilusória que, embora admitindo que isto é prejudicial, eles não conseguem, depois de algum tempo, distinguir o verdadeiro do falso. Para eles, a vida de alcoolismo parece ser a única vida normal. Tornam-se inquietos, irritáveis e descontentes, a não ser que possam ter novamente a sensação de alívio e conforto que chega logo após tomarem alguns goles - goles que eles vêem os outros tomarem sem problemas.

Depois de ter novamente sucumbido a este desejo, como tantos fazem, e depois que se desenvolve o fenômeno da compulsão, eles passam pelos bem conhecidos estágios da bebedeira, da qual emergem cheios de remorso, com o firme propósito de não beber outra vez.

Isto se repete inúmeras vezes e, a menos que essa pessoa possa sofrer uma radical mudança psíquica, há muito pouca esperança ele recuperação.

Por outro lado - por mais estranho que isto possa parecer aos que não com-preendem - quando ocorre uma mudança psíquica, aquela mesma pessoa que parecia condenada, que tinha tantos problemas a ponto de perder as esperanças de resolvê-los algum dia, de repente se vê capaz de, com facilidade, controlar seu desejo de beber, precisando para isto apenas do esforço necessário para seguir algumas regras simples.

Houve homens que me imploraram, num apelo sincero e desesperado: "Doutor, não posso continuar assim! Tenho todos os motivos para viver! Preciso parar, mas não consigo! O senhor precisa me ajudar!"

Diante deste problema, e sendo honesto consigo mesmo, um médico precisa, às vezes, admitir sua própria incapacidade. Embora dando tudo de si, muitas vezes não é o suficiente. Sente que algo maior do que o poder humano é necessário para produzir a mudança psíquica indispensável. Ainda que o total de recuperações resultantes do esforço psiquiátrico seja considerável, nós, médicos, precisamos admitir que fizemos muito pouco diante do problema como um todo. Várias pessoas não reagem ao enfoque psicológico usual.

Não concordo com aqueles que acreditam ser o alcoolismo um problema unicamente de controle mental. Tenho tratado de vários homens que, por exemplo, trabalharam durante meses num problema ou transação de negócios que deve-ria ser resolvida em determinada data, que lhes seria favorável. Um ou dois dias antes dessa data, eles tomavam uma bebida e, então, o fenômeno da compulsão tomava-se mais forte do que quaisquer outros interesses e o compromisso importante não era cumprido. Esses homens não estavam bebendo por fuga, bebiam para satisfazer uma compulsão acima de seu controle mental.

Há várias situações que se originam no problema da compulsão e levam os homens a sacrificarem suas vidas, em vez de continuarem lutando.

A classificação dos alcoólicos parece muito difícil e, sob vários aspectos, foge ao propósito deste livro. Existem, sem dúvida, os psicopatas, que são emocionalmente instáveis. Estamos todos familiarizados com este tipo. Eles estão sempre "largando a bebida pra valer". Sentem-se super-arrependidos e fazem vários planos, mas nunca tomam uma decisão.

Há o tipo de homem que reluta em admitir que não pode tomar uma bebida. Planeja várias maneiras de beber. Muda de marca, ou de ambiente. Há o tipo que sempre acredita que, tendo se livrado inteiramente do álcool por algum tempo, pode tomar um gole sem perigo. Há o tipo maníaco depressivo, que talvez seja o menos compreendido por seus amigos e a respeito do qual poderia ser escrito um capítulo inteiro. E há os tipos absolutamente normais sob todos os aspectos, a não ser quanto ao efeito exercido sobre eles pelo álcool. Trata-se, frequentemente, de pessoas capazes, inteligentes e cordiais. Todos estes, e muitos outros, possuem um sintoma em comum: não podem começar a beber sem desenvolver o fenômeno da compulsão. Este fenômeno, como já sugerimos, pode ser a manifestação de uma alergia que diferencia tais pessoas e as coloca numa categoria especial. Nunca foi definitivamente erradicado por meio de quaisquer dos tratamentos que nos são familiares. O único alívio que podemos sugerir é a total abstinência. Isto nos lança imediatamente num caldeirão fervente de debates. Muito tem sido escrito a favor e contra, mas, entre os médicos, a opinião geral parece ser que a maioria dos alcoólicos crônicos está condenada.

Qual a solução?

Talvez eu possa responder melhor a esta pergunta com a narrativa de uma de minhas experiências. Cerca de um ano antes desta experiência, me foi trazido um homem para ser tratado de alcoolismo crônico. Estava parcialmente recuperado de uma hemorragia gástrica e parecia ser um caso de deterioração mental patológica. Havia perdido tudo e vivia apenas, pode-se dizer, para beber. Admitia e acreditava sinceramente que, para ele, não mais havia esperança.

Após a eliminação do álcool, nenhum dano cerebral permanente foi encontrado. Ele aceitou o plano delineado neste livro.

Um ano mais tarde, veio me ver. Minha sensação foi muito estranha. Reconheci o homem pelo nome e, em parte, por seus traços, mas qualquer semelhança terminava ali. De uma ruína trêmula, desesperada e nervosa emergira um homem cheio de autoconfiança e alegria.

Conversei com ele durante algum tempo, mas não fui capaz de me convencer que o havia conhecido antes. Para mim, ele era um estranho e assim se despediu. Já se passou muito tempo e ele não voltou a beber. Quando preciso de estímulo mental, penso, muitas vezes, em outro caso, trazido por um eminente médico de New York. O paciente havia feito seu próprio diagnóstico e, concluindo ser sua situação irremediável, escondera-se num celeiro abandonado, determinado a morrer. Fora resgatado por uma equipe de salvamento e, em condições desesperadoras, trazido para mim.

Após sua reabilitação física, teve comigo uma conversa na qual declarou, com sinceridade, que considerava o tratamento um esforço inútil, a menos que eu pudesse lhe garantir o que ninguém jamais fizera, que no futuro ele teria a "força de vontade" de resistir ao impulso de beber.

Seu problema alcoólico era tão complexo e sua depressão tão grande que acreditamos que sua última esperança estaria no que chamávamos então de "psicologia moral". E duvidávamos que até mesmo aquilo pudesse surtir algum efeito.

Entretanto, ele se entregou às idéias contidas neste livro. Não toma um só gole de bebida há muitos e muitos anos. Vejo-o de vez em quando e ele é, sem dúvida, o exemplo de homem que qualquer um gostaria de conhecer.

Sinceramente aconselho a todos os alcoólicos que leiam este livro até o final. Embora talvez venham para zombar, pode ser que fiquem para uma prece.

Atenciosamente,

William D. Silkworth

Médico

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