Reflexão do dia 18 de fevereiro
CADA UM SEGUE O SEU PRÓPRIO CAMINHO
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Dr. Carl Gustav Jung

Com o objetivo de formalizar a gratidão de A.A. a um incontável número de pessoas que considerava responsáveis pela criação da Irmandade de A.A. um dos pioneiros membros escreveu uma carta para o Dr. Carl Gustav Jung, datada de 23 de janeiro de 1961.

Depois de se apresentar, Bill W. escreveu:

Duvido que o senhor esteja ciente de que uma determinada conversa que teve certa vez com um dos seus pacientes, um certo Sr. Roland [sic] H., no início da década de 1930, desempenhou um papel crítico na fundação de nossa Irmandade. Nossa lembrança das declarações de Roland H., sobre a experiência que teve com o senhor, é a seguinte:

Uma vez esgotados os outros meios de recuperação do alcoolismo, foi em torno de 1930 que ele se tornou seu paciente. Acredito que tenha permanecido sob seus cuidados talvez durante um ano. A admiração dele pelo senhor era ilimitada e ele voltou para casa com uma sensação de grande confiança.

Para sua grande consternação, logo recaiu na intoxicação. Certo de que o se-nhor era o "Tribunal de última Instância", ele se confiou novamente aos seus cuidados. 

Houve então a conversa entre ambos que deveria se transformar no primeiro elo de uma corrente de acontecimentos que levou à fundação de Alcoólicos Anônimos.

Antes de mais nada, o senhor contou francamente a ele sobre a sua falta de esperança em relação a qualquer tratamento médico ou psiquiátrico que pudesse estar envolvido. Essa sua afirmação cândida e humilde foi sem dúvida a pri-meira pedra do alicerce sobre os quais nossa Irmandade foi desde então construída.

Vindo isso do senhor, alguém a quem tanto admirava e em quem confiava, o impacto sobre ele foi imenso. Quando lhe perguntou em seguida se havia alguma outra esperança, o senhor disse a ele que poderia haver, desde que conseguisse se tornar objeto de uma experiência espiritual ou religiosa - em poucas palavras, uma conversão autêntica. O senhor salientou como essa experiência, caso ocorresse, poderia remotivá-lo quando nada mais podia. Mas o senhor lembrou, todavia, que embora essas experiências tivessem resultado ocasionalmente na recuperação de alcoólicos, elas eram no entanto relativamente raras. O senhor recomendou a ele que se rodeasse de uma atmosfera religiosa e esperasse pelo melhor. Essa foi, acredito eu, a essência dos seus conselhos.

Pouco tempo depois, o Sr. H. ingressou nos Grupos Oxford, um movimento evangélico então no auge do sucesso na Europa, com o qual sem dúvida o senhor está familiarizado.

O senhor deve se recordar da grande ênfase nos princípios do auto conhecimento, da confissão, da reparação e da dedicação ao serviço dos outros. Os Grupos enfatizam muito a meditação e a oração. Nesse ambiente, Roland H. encontrou uma experiência de conversão que o livrou por enquanto da sua compulsão para beber.

Esse conceito provou ser o alicerce do grande sucesso que Alcoólicos Anônimos teve desde então. Isso tornou a experiência de conversão disponível numa base quase de liquidação.

Como o senhor pode ver claramente, essa impressionante corrente de acontecimentos começou na verdade há muito tempo, no seu consultório, e se baseou diretamente na sua própria humildade e profunda percepção.

Muitos AAs ponderados são estudiosos das suas obras. Devido à sua convicção de que o homem é algo mais do que intelecto, emoção e dois dólares de compostos químicos, o senhor é especialmente caro para nós.

Esteja certo de que seu lugar na afeição e na história de nossa Irmandade não tem comparação.

Subscrevo-me muito agradecido.

A resposta de Jung, datada de Kusnacht-Zurich, 30 de janeiro de 1961, disse na totalidade:

Prezado Sr. Wilson:

Sua carta foi na verdade muito bem recebida.

Não tive mais notícias de Rowland H. e imagino frequentemente o que terá acontecido com ele. Nossa conversa, que ele narrou corretamente ao senhor, teve um aspecto que ele não percebeu. O motivo de não poder contar tudo a ele foi que, naqueles dias, tinha que ser extremamente cuidadoso com o que dizia. Constatei que era mal compreendido de todas as formas possíveis. Assim, tive muito cuidado quando conversei com Rowland H. Mas aquilo que realmente pensava era o resultado de muitas experiências com pessoas desse tipo.

A compulsão dele pelo álcool era equivalente a um baixo nível de anseio espiritual pela totalidade do nosso ser, expressa na linguagem medieval como a união com Deus. Como seria possível formalizar essa percepção em uma linguagem que não fosse mal compreendida nestes dias?

A única forma correta e legítima para essa experiência é aquilo que acontece com você na realidade e isso só pode acontecer quando se trilha um caminho que leva a uma maior compreensão. Você pode ser levado a atingir essa meta por um ato de graça ou através do contato pessoal e honesto com amigos, ou ainda através de uma educação superior da mente, ultrapassando os limites do mero racionalismo. Noto a partir da sua carta que Rowland H. escolheu o segundo caminho, que era, naquelas circunstâncias, obviamente o melhor.

Estou plenamente convencido de que o princípio do mal, prevalecente neste mundo, leva a necessidade espiritual despercebida à perdição, se não for contrabalançado pela verdadeira  percepção religiosa ou pelo muro protetor da co-munidade humana. O homem comum, não protegido por algo vindo de cima e isolado na sociedade, não consegue resistir ao poder do mal, chamado muito adequadamente de Demônio. Mas o uso dessa palavra suscita tantos erros que deve-se manter tanta distância dela quanto seja possível.

Foi por essas razões que não pude fornecer uma explicação completa e suficiente a Rowland H., mas posso arriscar-me com o senhor porque concluí, a partir da sua carta tão decente e honesta, que o senhor consolidou um ponto de vista acima das banalidades desorientadoras que se ouve normalmente acerca do alcoolismo.

Em latim álcool é spiritus, e o senhor usa essa mesma palavra em relação tanto à experiência religiosa mais elevada quanto ao veneno mais depravador. Consequentemente, a fórmula útil seria ”spiritus contra spiritum”.

Agradecendo mais uma vez sua delicada carta, permaneço sinceramente seu,

 C. J. Jung.

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