Reflex√£o do dia 22 de setembro
UM "FIL√ÉO INESGOT√ĀAVEL".
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Crescimento Espiritual

Dr. Laís Marques da Silva, ex-Custódio e Presidente da JUNAAB.

Palestra proferida por ocasi√£o da XVI Conven√ß√£o Nacional de Alco√≥licos An√īnimos - S√£o Paulo, abril de 2003

VIDA ESPIRITUAL

¬ďN√£o somos seres humanos passando por uma experi√™ncia espiritual,... somos seres espirituais passando por uma experi√™ncia humana¬Ē.

Teilhard de Chardin

√Č freq√ľente que as pessoas tenham a id√©ia errada de que a vida espiritual √© alguma coisa diferente e que deva ser vivida em separado, num cantinho l√° do c√©u, num ambiente et√©reo e m√≠stico. Pensam tamb√©m que o nosso dia a dia est√° ligado a uma outra realidade que n√£o √© l√° estas coisas, se comparada com o que concebem como sendo a vida espiritual, al√©m de muito mundana. √Č tamb√©m comum pensar que, para ser uma pessoa espiritual, √© preciso n√£o dar import√Ęncia √† nossa vida do dia a dia e ir para outra dimens√£o inteiramente diferente, um reino especial.

Separamos e dividimos o que √© uno e isso acontece com freq√ľ√™ncia. Ademais, a dimens√£o do que se entende por vida espiritual vai muito al√©m da repeti√ß√£o inconsciente de um ritual ou de uma ora√ß√£o. Por vezes, nos damos conta do potencial que temos de crescimento, mas √© preciso ter em mente que ele n√£o acontece por si mesmo. H√° caminhos a serem percorridos, programas e passos a nos orientar a fim de termos esse potencial realizado. √Č preciso estar consci-entes do modo como agimos, de como nos relacionamos conosco, com o nosso corpo, com as pessoas que nos rodeiam porque tudo isso cria uma esp√©cie de mundo, interior e exterior, dentro do qual vivemos. Ao evoluir nesses aspectos das nossas vidas, iremos criar condi√ß√Ķes para viver melhor e para crescer espi-ritualmente e, nesse ponto, estaremos optando pela liberdade ou pelo sofri-mento. Desenvolver a dimens√£o espiritual √© pr√≥prio da vida dos seres huma-nos.

Pode ser dif√≠cil andar nas nuvens ou caminhar sobre as √°guas, mas fazer exa-tamente isso sobre a terra tem-se mostrado um enorme desafio, uma tarefa que apresenta novas dificuldades a cada momento. Tornar-se um ser com um individualismo ameno e af√°vel √©, provavelmente, o milagre maior que pode-mos realizar, o objetivo maior que temos na vida. O grande milagre √© tornar-se um ser espiritualizado, pois a vida a todos n√≥s tem ensinado que uma pessoa que tenha uma mente poderosa, se n√£o tiver um bom cora√ß√£o, este poder n√£o ser√° de qualquer valia e pode ainda ser desvantajoso. Para caminhar sobre a terra, cada indiv√≠duo tem que partir do fato de que possui uma consci√™ncia e de que √© um ser √ļnico no mundo. Nada e ningu√©m √© igual e isso implica em que o ser humano √© s√≥, sente a sua solid√£o. Possui uma identidade √ļnica, √© singular. Al√©m de diferenciado no momento da concep√ß√£o, vive em ambientes diferentes e se desenvolve de um modo que lhe √© pr√≥prio. Tem que ser ele mesmo dentro do seu espa√ßo de liberdade.

O senso de autonomia e autodetermina√ß√£o lhe traz a id√©ia de ser respons√°vel por si mesmo, uma vez que √© o capit√£o do seu barco e mestre do seu destino. Percebe que s√≥ pode afirmar as suas potencialidades concretizando a pr√≥pria individualidade. Mas a√≠ entra a id√©ia de limite, pois que se vai longe demais nesta linha de desenvolvimento, acaba se tornando um ser orgulhoso, degene-rado e autodestrutivo. H√° tamb√©m o fato n√£o menos real de que, como ser so-cial, necessita das outras pessoas n√£o s√≥ para sustento e companhia, mas tam-b√©m para encontrar significado e sentido para a sua pr√≥pria vida. Assim, h√° duas realidades distintas e em oposi√ß√£o e ambas s√£o reais. Chamamos a isso de paradoxo e √© a partir dele que temos que crescer espiritualmente. O indiv√≠-duo √© impulsionado para o desenvolvimento total das suas possibilidades, mas tem que reconhecer que √© incompleto e, como tal, tem a sua fraqueza. Trabalha com a individua√ß√£o de um lado e com a sua depend√™ncia, de outro. O desenvolvimento que se faz mais calcado em uma das vertentes do paradoxo desequilibra a equa√ß√£o. As oposi√ß√Ķes geram ou s√£o a origem de conflitos, mas se os opostos forem unificados, n√£o haver√° tens√£o, conflito ou medo. O eu torna-se mestre de si mesmo e a vida pode vir a ser o que o indiv√≠duo deseja. Surge a liberdade, o dom√≠nio e a unifica√ß√£o.

O desenvolvimento espiritual permite encontrar um ponto de equil√≠brio entre essas duas tend√™ncias. √Č esse desenvolvimento harmonioso que evita poss√≠ve-is desvios. Se caminha pelo lado do individualismo, acentua a independ√™ncia e a autossufici√™ncia e a√≠, como n√£o consegue ser autossuficiente nem indepen-dente completamente, √© levado a falsificar, ocultando fraquezas e falhas. Tenta ser super homem e controlar totalmente a sua vida. O individualismo, no en-tanto, leva ao isolamento social, √† solid√£o que condena a viver um inferno existencial e, numa dimens√£o maior, √† fragmenta√ß√£o da sociedade. Mais adiante, o indiv√≠duo aprende que √© natural e humano sentir ansiedade, depress√£o e abandono e percebe que √© no conv√≠vio com os outros que pode compartilhar estes sentimentos sem medo ou culpa e ainda sem julgamento, se encontra o n√≠vel necess√°rio de entendimento.

A partir deste quadro simplificado e, sendo membro de A.A., o companheiro cresce espiritualmente e passa a desenvolver a √©tica de um individualismo sua-ve. Por outro lado, a vida mostra que, para cultivar um bom cora√ß√£o, n√£o √© su-ficiente dizer a n√≥s mesmo que devemos ser bons, pois dizer o que devemos ser, sentir ou fazer n√£o nos faz viver deste modo, mas nos abarrota de ¬ďdeveri-as¬Ē, que muitas vezes nos fazem sentir culpados porque nunca somos como pensamos que dever√≠amos ser.

√Č realmente necess√°rio transformar as nossas mentes e comportamentos acei-tando um fato bem caracterizado pelo mito do drag√£o. Os mitos s√£o uma ma-ravilhosa fonte que nos ajudam a compreender os complexos e multidimensi-onais aspectos da natureza humana porque representam uma determinada re-alidade. O drag√£o √© uma criatura mitol√≥gica que vem sendo usada por diferen-tes culturas h√° muitos s√©culos. Ele simboliza os seres humanos, j√° que s√£o co-bras com asas, vermes que podem voar e √© isso que n√≥s somos. Rastejamos como r√©pteis, atolados na lama de pecaminosas tend√™ncias e preconceitos cultu-rais resultantes da mente fechada. Mas, como p√°ssaros ou anjos, podemos voar e transcender a realidade de r√©ptil porque somos esp√≠rito e capazes de alcan√ßar os c√©us. Esta √© uma vis√£o clara da nossa realidade.

No mundo ocidental costumamos separar o f√≠sico do espiritual. A tecnologia tem desenvolvido conhecimentos que melhoram a nossa qualidade de vida e a nos-sa condi√ß√£o f√≠sica pessoal e, particularmente, a nossa sa√ļde. Mas vale dizer que a √™nfase maior caberia ao lado espiritual, j√° que o esp√≠rito √© entendido por n√≥s como sendo eterno, imortal. Aqui fica uma importante pergunta: seria pos-s√≠vel, com a tecnologia de guerra existente nos nossos dias, sobreviver dentro desta posi√ß√£o de manter separado o f√≠sico do espiritual? Tudo indica que, para salvarmos a nossa pele, teremos que salvar primeiro as nossas almas. Logo, desenvolvimento espiritual n√£o √© ret√≥rica abstrata e sem sentido pr√°tico.

Não parece ser possível melhorar a confusão em que colocamos o mundo de hoje sem pensarmos em alguma espécie de cura espiritual.

UM PROCESSO

Feitas as coloca√ß√Ķes iniciais, passamos a observar e a apreciar o que acontece num grupo de A.A. e tamb√©m a identificar o modo pelo qual ocorre o despertar e o crescimento espirituais, em alguns de seus aspectos. Dentre as muitas rea-lidades com que se defronta um rec√©m chegado a um grupo de A.A., destaca-se a de que, embora fique claro que o objetivo principal seja evitar o primeiro gole e assumir que √© s√≥ por hoje, ele se d√° conta de que h√° uma mensagem n√£o escrita, que est√° no ar, e que aponta para o fato de que n√£o basta que a-penas viva como um alco√≥lico s√≥brio, em abstin√™ncia. Percebe que n√£o √© sufi-ciente apenas estar s√≥brio, mas que precisa ganhar condi√ß√Ķes de permanecer s√≥brio. Ou seja, ele observa que os companheiros ali presentes n√£o est√£o a-penas s√≥brios. Muitos permaneceram s√≥brios por longo tempo e est√£o bem, compostos e felizes. Al√©m do mais, s√£o educados, af√°veis, atenciosos e ainda exibem uma atitude de boa vontade e de abertura em rela√ß√£o aos demais companheiros. Tudo isso a indicar que houve um progresso na recupera√ß√£o. Assim, descobre que h√° um caminho a ser percorrido, que h√° uma proposta para esse caminho e, mais adiante, vai ver que progredir ao longo deste cami-nho √© bem mais complexo do que se manter s√≥brio. √Č preciso construir novas refer√™ncias, estabelecer prioridades, deixar brotar novas esperan√ßas, livrar-se de antigos comportamentos. A porta aberta do grupo d√° acesso a uma nova realidade, a um caminho iluminado por luz libertadora.

COMUNICAÇÃO EM PROFUNDIDADE

A seguir, observa que as reuni√Ķes do grupo s√£o marcadas pela fala, s√£o reuni-√Ķes em que se fala, e que o sil√™ncio por parte dos que ouvem, usualmente, √© completo. Assim, aquele que fala encontra no sil√™ncio dos outros uma atitude de respeito em rela√ß√£o ao companheiro que faz o seu depoimento, e que isso estabelece uma abertura, traduz uma disponibilidade da parte dos companhei-ros do grupo.

O homem se realiza como pessoa atrav√©s da comunica√ß√£o; na comunica√ß√£o o indiv√≠duo sai de si em dire√ß√£o ao outro, passa a existir espiritualmente, ao mesmo tempo em que oferece a sua interioridade. Ganha a no√ß√£o de si mes-mo, da sua singularidade espiritual, e n√£o s√≥ passa a ser gente, mas se realiza como gente quando se projeta sobre o outro. O isolamento faz crescer o senti-mento de inseguran√ßa, o medo, mas o grupo responde √† necessidade de supe-rar a separa√ß√£o, de realizar a uni√£o, de transcender a vida individual, de entrar em sintonia com os outros. 

No grupo de A.A. todos se relacionam entre si, numa complexa interação.

Estar fora dos relacionamentos √© como estar fora da vida, e o homem sofre in-tensamente quando se sente isolado, fora do sistema de rela√ß√Ķes. Por outro lado, necessita recompor a sua autoestima, ser aceito e que algu√©m diga: ¬ďSeja bem-vindo ao nosso grupo, voc√™ √© a pessoa mais importante para n√≥s¬Ē. A rejei√ß√£o que sente, da parte dos que comp√Ķem o seu ambiente social, o faz sentir uma experi√™ncia de morte e, muitas vezes, o alco√≥lico nem √© chamado pelo nome, apenas tem apelido.

Mas o sil√™ncio de quem escuta um depoimento transmite a quem o faz a se-guinte mensagem: eu sei que voc√™ tem valor, que √© apenas um doente, que √© um ser humano como eu, que sofre de uma enfermidade devastadora e, por isso, voc√™ merece o meu sil√™ncio, a minha aten√ß√£o e o meu respeito. Voc√™ tem valor e merece a minha compreens√£o e eu sou capaz de compreender porque tenho a ¬ďqualidade¬Ē de ser um alco√≥lico e de ter sido batido pelo mesmo de-m√īnio, o alcoolismo. O sil√™ncio permite uma intera√ß√£o, um relacionamento di-reto e profundo, de olho no olho. Possibilita que se estabele√ßa uma empatia, significando que se sente precisamente o sentimento e o significado do que est√° sendo relatado.

Aquele que faz o depoimento encontra um lugar para os outros dentro do seu mundo pessoal, o que é indispensável para a sua própria realização existenci-al. Por outro lado, o silêncio permite que ele seja ouvido e compreendido e não apenas escutado. Neste ambiente, o companheiro pode abri-se inteiramente, baixar a guarda, pode estar presente de corpo e alma. O outro ganha existên-cia real e a comunicação inter-humana, com todo o seu potencial, é restabeleci-da e, não menos importante, fica aberta a porta para o ganho da autoestima. Compartilha porque tem a mesma necessidade e porque sabe que os companheiros da A.A. podem cicatrizar uns aos outros.

A comunica√ß√£o profunda, assim estabelecida, quebra o isolamento do alco√≥lico e integra os membros do grupo dentro de um todo. √Č estabelecida uma rela√ß√£o intensa e profunda entre os membros do grupo, ao contr√°rio dos contactos so-ciais superficiais e usualmente ligados a interesses. O relacionamento estabe-lecido √© gratuito porque aquele que faz o seu depoimento oferece a sua experi-√™ncia pessoal e os demais companheiros, no seu sil√™ncio respeitoso, a sua compreens√£o e o seu amor de irm√£o.

O sil√™ncio permite a manifesta√ß√£o da palavra, com todo o seu poder, e induz uma rela√ß√£o de reciprocidade, entendida como um mecanismo totalizador que envolve a todos os que est√£o no grupo. Est√£o imersos numa s√≥ atmosfera. Essa rela√ß√£o interpessoal profunda √© o fundamento da exist√™ncia de A.A. √Č nela que se ganha dimens√£o humana e espiritualidade, e isso, numa √©poca em que as pessoas se permitem esquecer do que √© mais caracter√≠stico do homem, que √© a sua humanidade.

Estabelece-se um ambiente sagrado, vivem-se momentos m√°gicos e todos sentem essa realidade, sendo usual que os companheiros que fazem os seus depoimentos os encerrem dizendo: ¬ďObrigado pelo sil√™ncio de voc√™s¬Ē.

VALORES ESPIRITUAIS

Identificada a exist√™ncia de um caminho a ser percorrido, de um programa, e restabelecida a comunica√ß√£o social numa dimens√£o muito especial, em algum momento dever√° acontecer que um companheiro se aperceba de que uma l√°-grima rola em seu rosto no decurso de um depoimento. √Č que ter√° emergido nele um dos sentimentos mais poderosos que um ser humano pode sentir, que √© a compaix√£o, e isso representa um importante marco no crescimento espiri-tual. A compaix√£o, entendida como a consci√™ncia profunda do sofrimento de uma outra pessoa associada ao desejo de alivi√°-la, √© a resposta espont√Ęnea de um cora√ß√£o que est√° aberto para os outros companheiros. N√£o h√° senti-mento mais enriquecedor e mais denso do que a compaix√£o.

Nem a nossa própria dor pesa tanto quanto a dor que sentimos com alguém e por alguém. Esta dor é amplificada pela nossa imaginação quando, mais tarde, dialogamos conosco e começamos a imaginar como deve ter sido grande o so-frimento do companheiro diante dos fatos que nos foram relatados no seu de-poimento. Ocorre também que esta dor é prolongada por muitos ecos, que são as lembranças que conservamos e que voltam posteriormente à nossa consci-ência repetidas vezes. Ter compaixão não é ter pena. A pena coloca as pesso-as em situação de superioridade. Compaixão é sofrer junto com quem sofre, caminhar com quem caminha, é atender as necessidades do outro, é não a-bandoná-lo na sua necessidade.

Esse sentimento comp√Ķe a espiritualidade e aumenta a nossa dimens√£o huma-na. Abre um espa√ßo para o outro dentro de n√≥s e cria as condi√ß√Ķes para o sur-gimento do amor ao pr√≥ximo. Embora n√£o haja a recomenda√ß√£o para que a-massem uns aos outros, este sentimento come√ßa a fluir a partir desta experi-√™ncia de grande intensidade emocional. O egocentrismo √© amenizado, o ego-√≠smo arrefece, o individualismo √°spero se abranda sem que as pessoas te-nham repetido oralmente qualquer inten√ß√£o ou que tenham fixado um plano especial para isso.

Essa expans√£o do sentir, do ser, ocorre dentro da atmosfera do grupo, que √© marcada por uma comunica√ß√£o feita em profundidade e no sil√™ncio respeitoso dos que empaticamente escutam. Isso ocorre num ambiente de compreens√£o, de respeito e de n√£o julgamento, marcado pela preserva√ß√£o do anonimato que garante, numa palavra, a exist√™ncia de um ambiente seguro. As pessoas que n√£o conhecem a Irmandade, mas sabem dos sofrimentos intensos da destrui-√ß√£o, em todas as dimens√Ķes do ser, que ocorrem como decorr√™ncia do alcoo-lismo a um paciente, imaginam que o ambiente dos grupos seja marcado pela dor e pela tristeza. Mas l√° est√£o pessoas vencedoras que, em vez de serem tristes, mostram grande riqueza espiritual e at√© alegria. √Č que a atmosfera est√° sempre impregnada pelo sentimento de compaix√£o e talvez, por isso, seja t√£o agrad√°vel estar no grupo e desfrutar de toda essa riqueza.

Os depoimentos fazem surgir a compaix√£o e n√£o a tristeza que viria com o sentimento de pena, que torna o outro menor.

HONESTIDADE

Estando na ativa, um dos passatempos preferidos pelos alco√≥licos √© abusar da boa  f√© dos que est√£o √† sua volta e, com o tempo, desenvolvem uma grande habilidade para manipular e acabam se tornam manipuladores deles mesmos. Este comportamento desonesto acabaria, com o tempo, por desintegrar as suas pr√≥prias vidas. A desonestidade torna-se um h√°bito, uma adi√ß√£o t√£o falaciosa e poderosa quanto o alcoolismo em si. No tempo do alcoolismo ativo, a desones-tidade se tornara uma maneira de vida, do que decorre que permanece nas mentes e nas emo√ß√Ķes por longo tempo. Acontece, no entanto, que ela d√≥i; √© como estar ferido por saber que n√£o se √© a pessoa que pensava ser e, ainda mais, por precisar beber.

O alco√≥lico vive num mundo de ilus√Ķes dif√≠cil, para ele, de ser identificado como sendo diferente do mundo real, porque n√£o se apercebe como um ser separa-do da realidade. Continua mentindo quando dizer a verdade seria mais f√°cil e conveniente. A verdade √© que a vida na bebida exigia que fosse desonesto e para mudar isso leva tempo, al√©m de exigir esfor√ßo e tamb√©m o conv√≠vio com pessoas honestas.

Estando s√≥brio, o alco√≥lico come√ßa a desfrutar a vida com os sentidos limpos, claros, e se torna capaz de apreciar as realidades do mundo tal como elas s√£o, sem a cortina da subst√Ęncia qu√≠mica, da droga. Ao freq√ľentar um grupo, mais cedo ou mais tarde, vai acontecer que o alco√≥lico ir√° fazer o seu primeiro depo-imento, no qual ir√° oferece a sua experi√™ncia pessoal, sempre √ļnica. Nessa o-portunidade, ir√° se defrontar com uma situa√ß√£o inteiramente nova na sua vida.

Valorizado pelo sil√™ncio respeitoso, pela aten√ß√£o dos companheiros, ciente do anonimato, da compreens√£o confortadora oferecida pelos companheiros e de n√£o ser julgado, ele come√ßa a abrir o seu cora√ß√£o, s√≥ que dentro de uma cir-cunst√Ęncia muito particular: √© que todos ali s√£o alco√≥licos e passaram por tudo o que ele passou e, os que n√£o tiveram essas experi√™ncias, as conheceram a partir dos relatos de outros companheiros, por terem ouvido os seus depoimen-tos ao longo de anos. Nesta ocasi√£o, surge um obst√°culo intranspon√≠vel que, num primeiro momento, pode n√£o ser perfeitamente identificado, mas √© perce-bido e que estar√° sempre l√°.

√Č que surge uma situa√ß√£o inteiramente nova: como manipular os companheiros que ouvem com aten√ß√£o e respeito? Como abusar da sua boa f√©?

Todos t√™m a ¬ďqualidade¬Ē de serem alco√≥licos, todos j√° progrediram no caminho da verdade, no caminho das atitudes conscientes. Eles sabem tudo. Todos j√° tiveram, em algum grau, a alegria de viver uma realidade muito especial, a de que a verdade liberta. Tornaram-se, com o tempo, capazes de penetrar nas suas racionaliza√ß√Ķes e rea√ß√Ķes de defesa.

Mas h√° muita culpa, muita vergonha, muito remorso e muita dor moral e todos est√£o atentos e em sil√™ncio. A√≠, cada um que faz o seu depoimento encontra o seu caminho diante desta condi√ß√£o irremov√≠vel, n√£o contorn√°vel, de que a ho-nestidade dos que ouvem ajuda o depoente a encontrar a sua pr√≥pria honesti-dade. A honestidade de cada um induz a honestidade de todos. Tamb√©m, nes-te aspecto particular, h√° uma reciprocidade porque aquele que faz o depoimen-to sente que, no conv√≠vio, na intera√ß√£o com os companheiros do grupo, ele n√£o pode ser desonesto, nem com eles nem consigo mesmo. Os que est√£o presen-tes necessitam da sua honestidade e o depoente, da mesma forma, precisa da honestidade dos que ouvem o seu depoimento. A honestidade, estabelecida desta maneira, cresce e se expande para √°reas cada vez maiores das suas vi-das, resultando que, na sobriedade, a honestidade ultrapassa, de muito, a da primeira admiss√£o e isso porque √© t√£o imposs√≠vel, como diz Plat√£o na Rep√ļblica, implantar a verdade na alma de um homem quanto dar a vis√£o a um cego de nascen√ßa. A verdade dos que ouvem ajuda aquele que faz o depoimento a encontrar a sua verdade, progressivamente, por si mesmo, ao longo do tempo.

N√£o h√° outro caminho poss√≠vel e, se optar por continuar manipulando, encon-trar√°, depois, algum companheiro que lhe dir√° de maneira gentil e com pala-vras de amor do√≠das: ¬ďvoc√™ esteve por inteiro dentro de um ¬Ēshow¬Ē, poderia o voc√™ real se levantar? Para ser honesto, qual √© o seu eu verdadeiro?¬Ē A aqui-esc√™ncia e o aceno de cabe√ßa dos companheiros que est√£o √† volta o far√° encontrar o caminho para a resposta. √Č que os alco√≥licos em recupera√ß√£o conhecem bem as fal√°cias da nega√ß√£o e do ocultamento. Esse momento √© muito dif√≠cil, mas h√° muita energia e muito apoio na atmosfera do grupo, e isso faz a diferen√ßa. Como esses momentos usualmente s√£o de grande sofrimento, recomenda-se ao alco√≥lico rec√©m-chegado que freq√ľente, se poss√≠vel, diariamente um grupo de A.A. pelo per√≠odo de um m√™s. √Č preciso receber suporte, compreens√£o e solidariedade por parte dos companheiros de forma continuada.

A honestidade marca o in√≠cio da recupera√ß√£o, quebra a nega√ß√£o, abre para a admiss√£o da impot√™ncia diante do √°lcool e para o fato de que a  vida do alco√≥-lico se tornou inadministr√°vel. Quem n√£o for capaz de ser honesto consigo mesmo ter√° dificuldade de entrar no Programa de Recupera√ß√£o de A.A.. A honestidade √© indispens√°vel para o crescimento espiritual e tamb√©m para usufruir tudo que a sobriedade e a vida t√™m para dar.

Para uma pessoa honesta, fica fácil continuar sendo honesta, enquanto que u-ma mentira sempre leva a uma outra mentira e o hábito da mentira faz do mentiroso um trapaceiro que sempre tem que proteger e preservar a mentira. Pelo contrário, a dedicação à verdade leva a uma vida de honestidade e as pessoas honestas vivem como que ao ar livre e, pela coragem de assim viver, se tornam livres também do medo.

A verdade, como fundamento da liberta√ß√£o, tem que ser total, inteira. O mito de Orestes desvenda aspectos complexos da natureza humana em rela√ß√£o ao poder libertador da honestidade. O mito diz que Agamenon, guerreiro grego e pai de Orestes, que participara da Guerra de Tr√≥ia, ao retornar √† p√°tria, vitori-oso, foi assassinado pela sua mulher Clitemnestra e pelo seu amante, Egisto. Este fato colocou Orestes num beco sem sa√≠da. A maior obriga√ß√£o de um grego era vingar seu pai em caso de assassinato mas, por outro lado, a coisa mais abomin√°vel que um jovem poderia fazer era assassinar a sua m√£e. Orestes decidiu matar a m√£e, foi condenado e os deuses decidiram que as F√ļrias, que eram deidades vingadoras na mitologia grega, e em n√ļmero de tr√™s, iriam rodear Orestes tagarelando culpas nos seus ouvidos e causando alucina√ß√Ķes que o levariam √† loucura. Por anos, as F√ļrias o perseguiram at√© que Orestes resolveu pedir aos deuses que o aliviassem da pena. Houve um novo julgamento em que o deus Apolo foi seu defensor, e nele mostrou que Orestes n√£o tivera nenhuma possibilidade de uma outra escolha que n√£o as que lhe haviam sido impostas e, por isso, n√£o podia ser considerado culpado.

Os deuses do Olimpo resolveram ent√£o absolver Orestes que, neste exato momento, e para espanto de todos, se op√īs a Apolo dizendo que se achava culpado, pois que n√£o tinham sido os deuses e sim ele mesmo que matara a sua m√£e, com as suas pr√≥prias m√£os. Nunca antes outro ser humano havia colocado a verdade dos fatos de tal forma que lhe fosse t√£o adversa, especi-almente depois de haver sido absolvido. Diante disso, os deuses decidiram manter a suspens√£o da pena e as F√ļrias foram substitu√≠das pelas Eum√™nides, tamb√©m outras tr√™s deidades da mitologia grega, que eram as ¬ďportadoras da gra√ßa¬Ē. Eram, pelo contr√°rio, vozes de sabedoria, dos esp√≠ritos ligados √† Terra e associados √† fertilidade, tendo tamb√©m fun√ß√Ķes sociais e morais. O mito mos-tra que a verdade, levada ao extremo, foi capaz de transformar a doen√ßa mental em sa√ļde e o pre√ßo foi a verdade a qualquer custo.

O programa de recupera√ß√£o de A.A. nos mostra que o caminho da verdade tem que ser percorrido continuamente. √Č uma busca, um trabalho para toda a vida porque meia verdade ainda √© uma mentira. Por outro lado, embora a verdade tenha que ser total e completa, conforta a lembran√ßa de uns pensamentos de A.A. que dizem que se deve preferir o ¬ďprogresso e n√£o a perfei√ß√£o¬Ē e que se deve ¬ďir de vagar, mas ir¬Ē. √Č preciso ver clara e diretamente a verdade da nossa experi√™ncia a cada momento vivido, estar atento, estar consciente. De outra forma, a maior parte da nossa vida √© conduzida por um piloto autom√°tico que funciona na base da gan√Ęncia, do medo, da agress√£o, da busca de seguran√ßa, de afei√ß√£o, de poder, de sexo, de riqueza, de prazer e de fama. Se vivermos agindo de modo a causar sofrimentos para n√≥s e para os que nos cercam, √© imposs√≠vel que a mente se torne serena e centrada como √© tamb√©m imposs√≠vel abrir o cora√ß√£o. A concentra√ß√£o e a sabedoria se desenvolvem rapidamente na mente baseada na generosidade e na verdade.

Por outro lado, n√£o podemos cair numa historinha que ouvi contar, chamada de ¬ďA Caverna da Verdade¬Ē. Sabendo da exist√™ncia dessa caverna, algumas pes-soas decidiram conhec√™-la. Fizeram uma longa viagem e, finalmente, ao chega-rem √† entrada, encontraram um guarda e perguntaram se aquela era a Caverna da Verdade, ao que o ele respondeu que sim. Perguntaram se podiam entrar e ele respondeu questionando o qu√£o profundamente eles queriam ir caverna adentro. Conversaram entre si e retornaram dizendo que gostariam de entrar na caverna, mas s√≥ o suficiente para dizer que tinham estado l√°. Essa hist√≥ria vem √† lembran√ßa quando resolvemos desenvolver uma maneira de vida que requer uma honestidade total. √Č preciso que n√£o se queira ser honesto apenas na medida necess√°ria para dizer que apenas visitamos a verdade e a honestidade. Temos que ir at√© o fundo, na caverna, para crescermos na honestidade. 

Uma outra dificuldade encontrada nessa busca √© o medo das conseq√ľ√™ncias e da dor que a honestidade pode trazer. Mas, ao compartilhar as suas experi√™n-cias pessoais no grupo, o alco√≥lico vai chegar √† conclus√£o de que a desonesti-dade √© ainda mais dolorosa e perigosa. As conseq√ľ√™ncias, a curto prazo, de ser honesto s√£o melhores do que as de continuar na desonestidade e √© importante destacar que os benef√≠cios que resultam da honestidade ser√£o colhidos logo em seguida.

At√© aqui o foco foi colocado sobre o presente e o passado. Mais adiante, na recupera√ß√£o, a honestidade vai deixar claro que a vida do companheiro tem prop√≥sito e sentido, que pode ser √ļtil aos outros, que passa a fazer a diferen√ßa e que, se n√£o significa nada para muita gente, torna-se muito importante para os companheiros do seu grupo e para ele pr√≥prio.

E como ser honesto? √Č n√£o ter a inten√ß√£o de enganar, nem a si nem os outros e nem o Poder Superior. √Č como parar de beber, √© parar. N√£o h√° alternativas para essas situa√ß√Ķes. Cabe aqui uma lembran√ßa: √© preciso ir com cuidado e ter paci√™ncia neste caminho porque ser brutalmente honesto pode ser mais brutal do que honesto. Finalizando, vimos que o outro, agora, n√£o s√≥ existe e ocupa um espa√ßo no interior de cada um companheiro, mas que tamb√©m √© percebido como de fundamental import√Ęncia para progredir na recupera√ß√£o, para encon-trar a verdade da vida vivida em comunidade e, por isso, enriquecida. Para alcan√ßar um novo equil√≠brio, um grau de harmonia indispens√°vel √† paz interior e os outros tamb√©m s√£o indispens√°veis para encontrar a honestidade.

A TRANSFORMAÇÃO COPERNICANA DO EU

O ideal superior, livremente escolhido e assumido, de manter as portas do gru-po abertas para poder estender a mão àquele que ainda sofre nas garras do alcoolismo e de levar a mensagem de A.A. faz com que os membros do grupo cooperem entre si e, com essa atitude, favoreçam o aparecimento de um clima de entendimento e de harmonia, do qual resulta que o comportamento dos membros do grupo, como um todo, se torna mais social. Vale, neste ponto, enfatizar que a harmonia e a sociabilidade eram tudo o que não ocorria com o alcoólico no tempo da ativa.

No grupo, desenvolvem a capacidade de acolher, de serem solid√°rios e coope-rativos, de conviver com o diferente, com o outro.Ao cooperar, o companheiro aprende a amar e ama porque coopera com os membros do grupo para alcan√ßar este importante objetivo. Caminha para a solidariedade deixando para tr√°s de si, muitas vezes, a indiferen√ßa de um orgulhoso individualismo. O amor √© a conseq√ľ√™ncia natural da coopera√ß√£o com os demais membros do grupo e uma decorr√™ncia dessa coopera√ß√£o. Amar o pr√≥ximo √© algo pr√≥prio do ser humano, √© manifesta√ß√£o do seu poder de se relacionar com o mundo. Dentro desse clima, o grupo passa a desempenhar o papel de um equipamento coletivo no qual o alco√≥lico se desloca do egocentrismo e do individualismo para o sociocentrismo. Vivendo nesse ambiente e participando dessa din√Ęmica, o membro do grupo caminha para uma ampla e completa coopera√ß√£o e √© na socializa√ß√£o que ele se torna mais homem e mais humano. O homem s√≥ pode se realizar e ser feliz em liga√ß√£o e solidariedade com os seus semelhantes.

Em Alco√≥licos An√īnimos, o alco√≥lico deixa de ser o centro dos seus pr√≥prios interesses e um outro companheiro passa a se constituir num novo p√≥lo mobilizador dos seus esfor√ßos, fora de si mesmo, e que vai mudar a sua maneira de se sentir e de ver o mundo que o cerca. O D√©cimo-Segundo Passo √© mais do que uma invoca√ß√£o a se amarem uns aos outros. A sua pr√°tica se torna a pr√≥pria instrumentaliza√ß√£o do amor ao pr√≥ximo. Representa um forte est√≠mulo para que se desenvolva o sentimento de amor ao pr√≥ximo de modo objetivo, real e eficaz. √Č como um exerc√≠cio que desenvolve e fortalece o amor ao pr√≥ximo, do mesmo modo que o exerc√≠cio f√≠sico desenvolve e fortalece o corpo. O companheiro, participando da vida do seu grupo, evolui na arte de viver e nela ele √©, ao mesmo tempo, o artista e o objeto da sua arte, o escultor e o m√°rmore, o m√©dico e o paciente.

Em tempos passados, existiu um astr√īnomo chamado Ptolomeu que dizia que a Terra estava no centro do universo e que os astros giravam √† sua volta. Isso era muito claro e bastava observar o c√©u. Muito tempo depois, um outro cientista e astr√īnomo, Cop√©rnico, descobriu que a verdade era bem diferente, pois que os astros realmente n√£o giravam em torno da Terra e sim do Sol. A Terra deixou de ser o centro e o verdadeiro centro dos movimentos passou a ser o Sol. Por estranho que possa parecer, algo semelhante acontece com o alco√≥lico no conv√≠vio com os membros do seu grupo. Ao praticar o 12¬ļ Passo, o alco√≥lico deixa de ser o centro e o irm√£o que ainda sofre passa a ser o novo p√≥lo em torno do qual giram a sua motiva√ß√£o e os seus esfor√ßos, o que leva a uma profunda modifica√ß√£o nos seus interesses e na sua conduta. Essa mudan√ßa traz consigo o deslocamento do ego√≠smo para uma nova condi√ß√£o, ditada pelo amor ao pr√≥ximo, que ocorre gra√ßas √† riqueza do 12¬ļ Passo. O Terceiro Legado √© uma d√°diva no caminho de recupera√ß√£o do alco√≥lico.

OPÇÃO POR SER E NÃO POR TER

O recolhimento de recursos financeiros poderia levar a sérios problemas, a conflitos insuperáveis. Alguém, muito importante no mundo dos negócios e que conhecia muito de dinheiro, advertiu, no início da vida da Irmandade, para o fato de que o dinheiro poderia estragar aquele movimento. Mas o perigo foi superado na opção feita pela pobreza, por querer ser e não por ter.

Despreocupados com os problemas do ter, os membros de A.A. t√™m o espa√ßo aberto para desenvolver o ser. Est√£o conscientes de que a nossa import√Ęncia, como seres humanos, n√£o se origina a partir das coisas que apenas possu√≠mos de modo t√£o passageiro. Querer ter mais, possuir mais n√£o significa ser mais.

Como n√£o h√° limite para a vontade de possuir mais, o desejo de ter mais leva ao ego√≠smo e ao individualismo que, por sua vez, n√£o conduz √† harmonia nem √† paz. Sabemos que a cobi√ßa e a paz se excluem mutuamente. O desejo de querer ter sempre mais leva ao antagonismo entre as pessoas. Uma sociedade, baseada predominantemente no ter, √© uma sociedade doente, constitu√≠da por pessoas doentes. N√£o obstante, no mundo que nos cerca, o objetivo maior das pessoas √© ter, de tal forma que se pensa que se uma pessoa nada tem, nada √©. Mas o sentido da vida √© ser muito e n√£o ter muito. √Č necess√°rio, isto sim, ter o suficiente para poder ser.

Quando uma associa√ß√£o humana como o A.A. se volta para o modo ser de exist√™ncia, ela faz com que as pessoas dos alco√≥licos sejam o centro das aten√ß√Ķes, dos esfor√ßos e das atitudes, em oposi√ß√£o ao modo ter em que tudo se volta para as coisas. No A.A., o importante √© a pessoa do doente alco√≥lico e esse objetivo n√£o se desloca para o desejo t√£o generalizado de ter porque a Irmandade optou por ser pobre e se programou para ter apenas o que √© essencial ao seu funcionamento e, com isso, evita que o foco das suas aten√ß√Ķes se desloque das pessoas para as coisas.

O desejo de ter √© t√£o generalizado que as pessoas chegam a se orgulhar de ter um horr√≠vel reumatismo, de ter um grande problema e vemos at√© que alguns dos nossos desejam ter a maior hist√≥ria de desgra√ßas para relatar. O desejo de ter √© de tal forma generalizado, t√£o enraizado na mente das pessoas, que elas querem ter at√© coisas que s√£o abstratas e, assim, dizem que t√™m uma id√©ia e n√£o que pensam ou que concebem, que t√™m amor e n√£o que amam, que t√™m √≥dio e n√£o que odeiam, que t√™m desejo e n√£o que desejam, que t√™m saudade e n√£o que sentem falta, que t√™m vontade e n√£o que querem; isto √©, preferem usar mais o substantivo, que define a coisa, do que o verbo. √Č dif√≠cil que as pessoas entendam que h√° um outro modo de vida, um modo voltado para ser, que √© o modo de Alco√≥licos An√īnimos.

Em A.A., os seus membros procuram ser: dignos, honestos, fraternos, bons companheiros, compreensivos e am√°veis, bons pais, bons amigos, bons filhos, bons c√īnjuges, etc., representando tudo isso um ganho espiritual e um novo potencial de desenvolvimento. Os modos de ter e de ser caracterizam dois tipos diferentes de comportamento, de pessoas que t√™m maneiras diversas de sentir, de pensar e de agir. No modo ter, as pessoas querem possuir tudo e todos enquanto que o modo ser traduz vitalidade e for√ßa espiritual que leva a um relacionamento amoroso e pac√≠fico.

Com vitalidade e força, o modo ser traduz-se em atividade, processo, movimento. Ser é vida, nascimento, renovação, fluidez, criatividade. Ser quer dizer mudança e transformação para melhor porque mudança e crescimento são qualidades do processo, daquilo que tem vida, e o Programa de Recuperação é todo de crescimento espiritual, é todo um processo de mudança interior, de reformulação de vida, que encontra no modo ser do grupo o ambiente ideal para o pleno desenvolvimento dos membros de A.A..

HUMILDADE

Por √ļltimo, vamos enfocar um atributo que √© absolutamente indispens√°vel √† recupera√ß√£o, a humildade. Ela est√° presente em cada Passo do Programa de Recupera√ß√£o, est√° no fundamento de todo o progresso alcan√ßado ao longo do caminho percorrido em dire√ß√£o √† recupera√ß√£o. Para entender melhor o significado da palavra, consultamos o dicion√°rio e vimos que humildade √© a qualidade de ser modesto ou respeitoso e modesto √© n√£o ter ou expressar uma opini√£o muito elevada acerca das suas pr√≥prias realiza√ß√Ķes ou habilidades; n√£o ser exibido, arrogante ou pretensioso.

Neste aspecto da evolu√ß√£o espiritual, vamos nos deparar com uma realidade que nos levar√°, para o seu estudo, a um modo diferente de abordagem. S√≥ √© poss√≠vel enxergar a partir de um determinado √Ęngulo. √Č preciso abordar o assunto a partir de uma √≥tica pr√≥pria, a da humildade. Pela sua import√Ęncia, este √© um tema freq√ľentemente abordado em reuni√Ķes de estudo porque sabemos que representa uma pr√©-condi√ß√£o para o crescimento indispens√°vel, n√£o s√≥ para manter s√≥brio o alco√≥lico mas tamb√©m para que possa progredir na sua recupera√ß√£o. Por outro lado, √© um tema que se tem mostrado dif√≠cil de abordar.

√Č que h√° uma realidade que precisamos considerar. Neste momento, optei por escrever algo do que venho aprendendo durante anos e posso escrever agora porque tenho todas as condi√ß√Ķes para isso. Mas n√£o posso querer que algu√©m v√° ler o que escrevo. De um lado, eu posso optar por usar os meios necess√°rios para escrever, mas de outro, posso apenas e t√£o somente procurar uma orienta√ß√£o, uma dire√ß√£o, um contexto que, espero, possa levar as pessoas a lerem o que escrevo, mas n√£o mais do que isso. Posso escrever, mas n√£o posso querer que algu√©m leia o que escrevo, posso continuar escrevendo agora, mas n√£o posso querer que algu√©m continue lendo.

Humildade é outra coisa que o alcoólico não pode querer, como quero escrever porque tenho os meios. Ele pode não ingerir o primeiro gole, ir a uma reunião de grupo ou trabalhar os Passos do Programa. De outro modo, como sem esforço pego a caneta, ele pode fazer a coisa fácil de pegar o telefone para falar com o padrinho ou pegar o carro para ir ao grupo, mas o que ocorre quase sempre é que acaba indo comprar bebida. Os dois modos de agir são profundamente diferentes.

Da mesma forma, posso desejar conhecimento, mas n√£o sabedoria, submiss√£o, mas n√£o humildade; auto-afirma√ß√£o, mas n√£o coragem; proximidade f√≠sica, mas n√£o intimidade emocional. O fato √© que podemos querer e ter algumas coisas, mas outras ficam fora da nossa vontade e podem acontecer ou n√£o. Sobriedade, sabedoria, humildade, coragem e amor n√£o s√£o objetos e o que podemos fazer √© optar por nos movermos em dire√ß√£o a elas. Como vemos, a humildade est√° nesta categoria. Ela n√£o pode ser comprada e tamb√©m n√£o se pode decidir ter. √Č conseguida indiretamente ao trabalhar os Passos.

Somos limitados porque somos humanos e por n√£o haver absolutos e nem ilimitados no nosso poder humano √© que o A.A. aconselha que devemos procurar ¬ďprogresso e n√£o perfei√ß√£o¬Ē. Assim, os companheiros ir√£o progredindo e se tornando crescentemente humildes.

O alco√≥lico √© como a crian√ßa a quem chamamos de reizinho. Quer porque quer e quando quer; o mundo tem que suprir as suas necessidades. Da√≠ o comportamento grandioso. Costumam pagar a conta de quem n√£o conhecem e d√£o presentes estapaf√ļrdios. A recupera√ß√£o depende basicamente de assumir atitude humilde e de aceitar a sua impot√™ncia diante do √°lcool e tamb√©m de admitir que perdeu a capacidade de governar a sua vida.

Embora geralmente seja menos visível, costuma também existir uma baixa auto-estima, que se identifica no comportamento que oscila entre posso tudo e não posso nada, mas sempre achando que é diferente. No trabalho com os 12 Passos, o alcoólico desenvolve um senso mais profundo e seguro de autoestima.

Embora os alco√≥licos relutem em admitir que necessita de ajuda, em aceitar que o Poder Superior possa devolver a sanidade √†s suas vidas, essa √© uma atitude de humildade indispens√°vel para o progresso espiritual e os fazem reconhecer que tanto s√£o √ļnicos como comuns porque compartilham de todas as coisas que s√£o importantes com o resto da humanidade. Tamb√©m a 12¬™ Tradi√ß√£o os relembra para colocar os princ√≠pios acima das personalidades, e essa √© mais uma li√ß√£o de humildade. Adiante, estando dispostos a aprender, os alco√≥licos v√£o admitir que necessitam da ajuda dos outros para iniciar a sua recupera√ß√£o e aprender com esses outros a crescerem na sobriedade. N√£o podem crescer sozinhos e, por outro lado, ningu√©m pode fazer isso por eles.

A aceita√ß√£o das conseq√ľ√™ncias das suas a√ß√Ķes ajuda a perceber a rela√ß√£o de causa e efeito que rege a vida. Aqui, j√° est√£o uns primeiros passos e a humildade trabalha entre os dois extremos de comportamento do alco√≥lico. Os outros, em algum momento, passar√£o a existir no seu interior e, depois, o companheiro ver√° que eles continuar√£o sendo necess√°rios ao longo da recupera√ß√£o.

Freq√ľentar reuni√Ķes, ler a literatura e compartilhar os seus problemas com o padrinho s√£o de grande valia para se manter s√≥brio e tamb√©m para crescer na humildade. Por outro lado, humildade e humor est√£o relacionados. O A.A. lembra: ¬ďn√£o se leve tanto a s√©rio¬Ē. Os companheiros do grupo, √†s vezes, furam os bal√Ķes da grandiosidade de um companheiro e, em outras ocasi√Ķes, os tiram das profundezas da autopiedade. Isso os faz progredir no caminho da humildade. Rir do passado n√£o significa ter uma atitude irrespons√°vel, mas apenas ver em perspectiva e perceber que as suas a√ß√Ķes, pensamentos e sentimentos n√£o est√£o no centro do universo. Al√©m do mais, tudo isso ajuda a tirar o foco de cima do √°lcool. Afinal, ningu√©m, estando bem, resolve ir para o A.A.. √Č preciso reconhecer que essa atitude √© tomada a partir de uma vida de dor, medo, frustra√ß√£o e raiva.

Com o tempo, os alcoólicos em recuperação se dão conta de que estão menos autocentrados, de que as suas vidas estão enriquecidas e a sobriedade é percebida como sendo compensadora. A vida passa a ser organizada também em torno do que podem fazer pelos outros e passam a compartilhar com eles o que têm recebido. Isso já significa o despertar da humildade.

A humildade √© tamb√©m buscada quando resolvem ter a gratid√£o como um modo de vida e isso porque os ajuda a ver a vida a partir de uma perspectiva diferente. Uma boa maneira de desenvolver este sentimento √© anotar todas as coisas em rela√ß√£o √†s quais devem ser gratos no decurso de um dia. Passam a reconhecer o que lhes foi dado e se importam menos com o que realizam. Um outro modo √© desenvolver o h√°bito da admira√ß√£o. Admirar o por do sol, o mar, a chuva, etc, porque os tira de dentro de si mesmos de uma maneira sadia. Os servi√ßos realizados no grupo tamb√©m ajudam a desenvolver a humildade. Ouvir e compartilhar leva a uma saud√°vel e feliz sobriedade. Com a humildade surge o agradecimento, que √© a resposta natural √† generosidade com que os alco√≥licos s√£o recebidos no grupo. √Č um sentimento profundo e, estando agradecidos, se doam aos outros, de tudo resultando a amizade, o amor e, numa palavra, a solidariedade.

Os que conquistaram um est√°gio mais avan√ßado de crescimento espiritual, uma maior consci√™ncia, s√£o possu√≠dos por uma feliz humildade. Conscientes da sua liga√ß√£o com um Poder Superior, t√™m o grande desejo de que ¬ďseja feita a Vossa vontade ¬Ė fazei de mim o Vosso instrumento¬Ē.

SER SANTO

Muitas vezes ouvi companheiros dizerem que se fossem seguir os princ√≠pios de A.A. se tornariam santos e, por causa disto, n√£o se empenham tanto no Programa de Recupera√ß√£o. Mas, ao admitirem que ¬ďum Deus amant√≠ssimo Se manifesta na nossa consci√™ncia coletiva¬Ē e, portanto, que est√° entre eles, no conv√≠vio enriquecedor de verdadeiros irm√£os, √© inevit√°vel assumir que est√£o crescendo em dire√ß√£o √† divindade. Esta √© uma id√©ia muito simples, mas tamb√©m muito exigente. Se podem alcan√ßar a divindade, ent√£o ter√£o que cuidar do crescimento espiritual, buscar n√≠veis progressivamente mais altos de consci√™ncia e de atividade amorosa. Assim, o trabalho nunca estar√° feito, acabado. O crescimento espiritual √© um anseio para toda a vida, al√©m do que, √© tamb√©m um caminho trabalhoso, que exige esfor√ßo. Talvez esta seja uma desculpa para explicar as dificuldades que encontram ao praticar os Passos porque elas ocorrem naturalmente, uma vez que √© preciso coragem, determina√ß√£o, empenho, const√Ęncia e cora√ß√£o forte e n√£o √© sempre que encontramos pessoas com estes atributos. Entendo tamb√©m que nascemos para ser santos e o problema √© que n√£o conseguimos realizar todo o potencial que temos dentro de n√≥s nem, usualmente, ir t√£o longe no caminho que nos √© sugerido pelo A.A.. No entanto, no meu julgamento, encontrei, ao longo dos mais 30 anos de conv√≠vio com membros de A.A., alguns companheiros que penso que s√£o santos. S√£o pessoas maravilhosas, que irradiam uma paz muito grande e possuem uma riqueza interior deslumbrante. Muitos se constituem em figuras exemplares. S√£o excelentes em virtudes e em santidade. S√£o luzes que guiam mais pelo exemplo que pelas palavras. Com os seus depoimentos, estimulam a sermos mais fraternos, termos mais compaix√£o, sermos mais humanos e espirituais. Tenho desfrutado de grande felicidade na companhia deles. Para mim, s√£o santos e as suas atitudes t√™m a pureza, a retid√£o e a rever√™ncia como fundamento.

AS INCERTEZAS E OS QUESTIONAMENTOS

Até aqui, as minhas certezas. O que vi e ouvi. O meu entendimento. Não a partir de uma visão idealizada, mas sim a partir da constatação da existência de um ideal perfeitamente realizável e, muitas vezes, realizado. Um caminho que, realmente, está aberto e posto como opção: de percorrer ou não ou até o ponto que se consiga ou deseje alcançar. Fica a idéia de busca a ser empreendida ao longo de um caminho delineado.

A lenda do Graal possui uma vitalidade mágica e por isso é uma lenda viva, que existe há mais de 900 anos e desperta a imaginação e o espírito. Ela também traz a idéia de busca, a busca do Santo Graal. Falar do Santo Graal desperta a imaginação e mobiliza para alguma coisa que está no inconsciente coletivo. A lenda tem origem numa história que resultou de uma mistura e de uma fusão de crenças e lendas populares, chegando a uma imagem sonhada e arquetípica de uma busca final e definitiva para todos e para todas as coisas.

Na época em que a lenda apareceu, a Europa vivia tempos particularmente difíceis, com o poder político fragmentado, onde grupos armados errantes saqueavam as colheitas. Havia fome, epidemias, guerras, tudo isso levando a um profundo empobrecimento da população e gerando insegurança e ansiedade. Nesse ambiente, e como ocorreu em outras épocas, surgiu um grande fervor religioso não só entre cristãos, mas entre os outros povos da região.

Inicialmente, a lenda do Santo Graal era celta e, portanto, pag√£, e estava muito ligada aos feitos da cavalaria. Mais tarde, foi cristianizada pelos monges da Ordem de C√≠ster que n√£o tanto a mudaram, mas sim, lhe deram conte√ļdo crist√£o. Resultou que o Santo Graal ficou sendo entendido como sendo o c√°lice usado por Cristo na Santa Ceia e que, mais tarde, foi usado por Jos√© de Arimat√©ia para recolher o sangue que escorreu das feridas do Cristo, quando da crucifica√ß√£o. Ao retornar √† Bretanha, o c√°lice passou de gera√ß√£o em gera√ß√£o, dentro da fam√≠lia de Jos√©. O Graal tinha propriedades milagrosas e podia fornecer alimento aos sem pecado, mas cegar os impuros e fazer ficar mudos os irreverentes.

Na lenda, estava impl√≠cita a busca de um objetivo geralmente tido como sendo um c√°lice que s√≥ poderia ser alcan√ßado por um ser humano puro. Essa lenda teve evolu√ß√£o diferente em diversas regi√Ķes. Na que hoje √© a Fran√ßa, a lenda deu origem aos ideais de cavalaria, aos cavaleiros e aos trovadores que cantaram e difundiram os fatos e lendas daquele tempo. Eram cavaleiros galantes que cantavam os grandes ideais e a beleza de nobres senhoras. Na regi√£o em que hoje est√° a Alemanha, a lenda evoluiu para o aparecimento de seres perfeitos e puros que tinham condi√ß√Ķes de alcan√ßar o Graal. Sobressai a√≠ a figura de um grande personagem, Parsifal. Na Irlanda e na Gran Bretanha houve forte influ√™ncia de poderes m√°gicos e de fatos extraordin√°rios ocorridos na corte do rei Arture do mago Merlin; havia o sentido do fant√°stico, dos poderes misteriosos, do sobrenatural. Nesta corte, nasceu Galahad, her√≥i e cavaleiro perfeito, sem qualquer defeito de car√°ter, que se lan√ßou na busca do Santo Graal, sendo essa a parte central da literatura arturiana e do romance medieval de Parsifal.

A grande aventura era chegar ao Santo Graal, sem defeitos, e o contacto com ele, tendo no seu interior o sangue de Cristo, seria o contacto direto com o Cristo e, por meio dele, com o Criador, o Poder Superior. Mas isso só os puros podiam fazer. Comecei a me perguntar se não seria o crescimento espiritual em A.A. um caminho de purificação de modo a tornar alguns companheiros santos. Não teriam eles tido, uma vez que sem defeitos de caráter, algum contacto simbólico com o Santo Graal que os teria tornado santos? Não seria o caminho do crescimento espiritual uma busca, uma trajetória, da mesma forma que o caminho percorrido pelos cavaleiros puros na busca do Santo Graal? Aqueles que alcançassem um nível espiritual elevado, como Galahad e Parsifal, teriam a ventura, rara, de alcançar o Santo Graal. Alguns dos santos que conheci em A.A. foram chamados e moram em algum reino situado além das galáxias, mas outros ainda andam por aqui e vim à Convenção para ter a ventura de conviver um pouco mais com eles e para conhecer mais alguns.

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