Reflexão do dia 20 de abril
AUTOEXAME
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O Quarto Passo - "Sem Medo, Sem Culpa, Destemidamente..."

Dr. Sérgio de Paula Ramos, Psiquiatra

ex-Custódio não alcoólico - Autor do livro: Alcoolismo Hoje

Como psiquiatra de centros de tratamento de Farmacodependência - no decorrer de catorze anos -  acompanhei cerca de mil e quinhentos inventários. As manifestações que observamos nos dias em que as pessoas estão escrevendo os inventários são perceptíveis a todos que trabalham ou estão se tratando no Centro de Tratamento: medo, vergonha, sensação de humilhação, pânico, von-tade de fugir do tratamento, sentimentos de fraternidade e humildade, alegria, alívio, segurança pelas autodescobertas e aceitação de si mesmo.

Escrever detalhadamente sobre si mesmo exige concentração, esforço de memória e um certo grau de organização dos pensamentos que tornam esse escrever um procedimento dotado de elevado conteúdo terapêutico. Desta forma, o indivíduo é submetido a um profundo contato consigo mesmo, com a sua história e com a sua realidade; ali ele se vê de forma crítica e a reavaliação; traz-lhe percepções claras de cada momento e de cada fato bom ou ruim de sua vida, de suas qualidades, seus defeitos e seus limites.

É como deixar para trás o peso que carregava; é lavar a alma de uma só vez.

Em Alcoólicos Anônimos, o tratamento é baseado no programa de Doze Passos. Esse programa não permite uma leitura estática e é interpretado  diferentemente a cada vez que é lido.

Tal dinâmica impede que seja entendido ou iniciado e terminado e possibilita a sua prática indefinidamente.

Quanto melhor for o autoconhecimento, maior será a capacidade de praticar o programa, que tem a sua eficácia reconhecida por centenas de milhares de alcoólicos em todo o mundo.

A responsabilidade do alcoólico quanto a sua sobriedade está ligada ao seguimento do programa.

O psicólogo e teólogo Carlos Barcelos explica que a chave da recuperação é a graça do Poder Superior, a possibilidade é renascer da morte do pecado (falhas e desvios).

Todos os homens pecaram e estão destituídos da graça de Deus (têm defeitos), que projetou uma forma de resgatar os homens (corrigir seus erros e defeitos).

Para recuperar o domínio próprio (domínio sobre nossas vidas) temos que mudar de atitude. A entrega de nossa vontade na mão de Deus não é possível se não sabemos o que vamos entregar.

Muitas vezes, as situações de descontrole a nível emocional são as raízes que nos levaram ao copo.

Os nossos instintos foram criados  para a nossa manutenção e defesa: os instintos de dignidade, acumulação, proteção, sexual, alimentar, aspirações e de descanso.

A satisfação de cada um desses instintos nos dá prazer. O prazer pelo mero prazer (mau uso dos instintos) é uma distorção e assim o instinto de dignidade pessoal ou respeito próprio  vira orgulho, o de acumulação vira avareza, o sexual vira luxúria ou lascívia, o de proteção vira ódio ou ira, o de alimentar vira gula, o de aspirações vira inveja e o de descanso vira preguiça.

Para suportar a culpa e a vergonha, usa-se a bebida, que vai fazer progredir um instinto adquirido. O desenvolvimento desse instinto adquirido (alcoolismo) dificulta o percebimento do alcoólico, que continua agravando cada vez mais as suas distorções instintivas que o fazem beber, configurando assim um circulo vicioso.

Certamente devemos levar em consideração os fatores bioquímicos, psicológicos, sociais e filosóficos relevantes da estrutura da doença, mas todos eles se encaixam perfeitamente com a interpretação teológica e também são analisados no inventário.

Recomenda-se que o Quarto Passo seja feito por escrito, longe da presença de pessoas que possam inibir ou mudar o rumo das idéias.

A ausência de pessoas ligadas ao alcoólico o deixa livre para escrever seus segredos e analisá-los sem qualquer cerceamento. É preferível que não saiba nem mesmo para quais pessoas  irá ler o seu inventário (Quinto Passo). Um compromisso prévio de que não terá a atitude demagógica de mostrar posteriormente o seu inventário  para os parentes e amigos também atenua os bloqueios inconscientes. A proposta de destruir as páginas escritas após o Quinto Passo também é de muita valia  na atenuação daqueles bloqueios.

Seguir um roteiro com sugestões de tópicos a serem abordados no Quarto Passo pode facilitar a escrita do mesmo, mas acho melhor utilizar o roteiro somente depois que o inventário estiver pronto, apenas para acrescentar fatos ou sentimentos que possam ter sido esquecidos.

Fazer o inventário não significa apenas escrever superficialmente sobre si mes-mo. Isto tem que ser feito com minúcias e coragem, tem que ser sincero e destemido, a oportunidade tem que ser aproveitada. Uma boa auto-avaliação acarreta em maior facilidade para se determinar tudo o que será feito  a curto, médio e longo prazo. Permite decidir quais são as prioridades, o que pode e deve ser modificado como e quando fazê-lo.

Parar de beber e ficar de frente para as ruínas que o álcool deixou pode ser deprimente e desaminador para o alcoólico que não vê soluções ou saídas para as conseqüências. O conhecimento detalhado da doença e de seus próprios limites, assim com saber lidar com as dificuldades iniciais da abstinência, ter planos bem estruturados para executar e ideais para serem alcançados, faz com que o alcoólico se sinta mais seguro e tenha participação determinante na sua recuperação, podendo enfrentar com satisfação todas as dificuldades que possam surgir.

Fonte: Revista Vivência nº 41 - Maio/Junho 199

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