Reflexão do dia 20 de abril
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O Porquê da Unidade

Dr. Jorge César Gomes de Figueiredo - Psiquiatra

Diretor da Clínica Vitória

O famoso filósofo francês, Jean Paul Sartre dizia que "o inferno são os outros".

Punha ele em evidência, dessa forma, um traço dos mais humanos, de responsabilizarmos os outros por nossas dificuldades. De fato é do bicho homem a necessidade de tratar o outro como diferente de si, e um diferente responsável pelos problemas que possamos ter.

Por esse caminho, a turma da "Zona Norte" nas histórias do Bolinha era o inimigo, tanto ou quanto hoje é, muitas vezes, tratado como inimigo  o torcedor de um time de futebol que não o meu, ou o eleitor de um partido político diferente do meu.

A culpa pelos problemas administrativos surgidos no mandato de determinado prefeito é sempre de seu antecessor, e não raro ouvimos presidentes da repú-blica responsabilizarem a "conjuntura internacional", ou a tal da "globalização" por nossos reveses.

Com tal postura pretendemos sofrer menos, pois o problema está nos outros. Eles são os culpados. É a tal coisa: se o time perdeu é porque o juiz roubou.

A grande questão é que ao nos convencermos do roubo do juiz, não atentaremos para o nosso próprio time. Com isso não mudaremos jogadores, não melhoraremos a tática e possivelmente perderemos de novo!

Esse funcionamento, que é encontrado em maior ou menor grau em todas as pessoas, ganha importância entre os alcoolistas e já faz parte do anedotário popular o conjunto de "razões" alegadas por um paciente, para justificar o consumo de bebidas alcoólicas: é a mulher que é insuportável, o chefe que lhe persegue, os clientes que não compram, etc. Sempre os outros "explicando e justificando" o fato de beber.

Muito se tem escrito na literatura sobre o "porre seco", aludindo-se ao fato de que vários dos comportamentos alcoólicos não cessam de imediato quando alguém pára de beber. O que mais chama a atenção é o de responsabilizar os outros por nossas dificuldades. Por isso a genialidade do Quarto Passo e principalmente o Décimo que preconiza a crônica repetição do Quarto. É olhando para nós mesmos que iremos evitar de achar que outros são os responsáveis pelos nossos fracassos. Nessa medida, arriscamos dizer que Sartre só disse o que disse porque não era membro de A.A. e não fizera seu Quarto Passo!!!

Mas o que tem a ver tudo isso com o tema da Unidade?

É claro que como a Irmandade  de A.A. é constituída de alcoolistas, estes levam para dentro dela seu jeito de ser e se o grupo não se opuser decididamente a essa tendência de cada pessoa, no momento seguinte em vez de todos estarem se apoiando reciprocamente para parar de beber, estarão brigando uns contra os outros, pelas mais diferentes razões, e muitos retornarão para a bebida.

Assuntos para brigar não faltam: dinheiro do grupo, quem vai desempenhar tal função, convivência com outros grupos, etc. Também não faltam "inimigos" externos: a televisão com a propaganda de bebidas alcoólicas, o governo que não estimula cuidados de saúde para a população, os médicos, etc. Portanto, se tivermos necessidade pessoal, interna, de brigar, sempre encontraremos um "inimigo" de plantão.

Penso que o tema da Unidade é oportuno, pois sublinha uma força para se opor a isso que descrevi até agora.

Ocorre que quando elegemos um inimigo, no instante seguinte estamos brigando com ele, o grupo se desvia do seu único objetivo, perde-se inicialmente a serenidade e muitas vezes se vai a sobriedade.

Um grupo, portanto, que não se deixa levar por essa tentação, que se esforça para facilitar que seus membros concentrem-se no programa dos Doze Passos, acabará sendo um grupo pois, ao admitir a "natureza exata de minhas fraquezas", não mais terei necessidade de grifar as fraquezas alheias e com isso o outro, em vez de ser visto como inimigo, voltará a ser apenas um "irmão de doença", tão necessitado de ajuda quanto eu mesmo, daí resultando a união.

Assim, para se alcançar e se manter a Unidade o caminho é aquele sugerido por um pensamento que li num pára choque de caminhão: "Não aponte meus defeitos com o dedo sujo".

Fonte: Revista Vivência nº 81 - Janeiro/Fevereiro 2003

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