Reflexão do dia 13 de novembro
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Quando o Grande "Eu" se torna "Ninguém"

Dr. Harry Tiebout, Psiquiatra

Grande amigo da irmandade desde 1939 foi o primeiro psiquiatra a reconhecer o trabalho de A.A. e a usar os seus princípios em sua prática profissional. Junto com outros médicos, o Dr. Tiebout acelerou e aprofundou a aceitação mundial de A.A. entre os homens da medicina.

O programa de ajuda de A.A. foi bafejado por elementos de verdadeira inspiração, e, em nenhum aspecto é mais evidente do que na escolha de seu nome, Alcoólicos Anônimos.

O anonimato constitui-se, naturalmente, em uma proteção de grande valor, especialmente para o recém chegado; porém, minha intenção presente é de enfocar um valor ainda maior do anonimato, na contribuição para o estado de humildade necessário para a manutenção da sobriedade do alcoólico recuperado.

Minha tese é de que o anonimato, cuidadosamente preservado, fornece dois ingredientes essenciais para essa manutenção. Esses dois ingredientes, na verdade, são duas faces de uma mesma moeda: primeiro, a preservação de um ego reduzido; segundo, a presença contínua de humildade ou simplicidade.

Conforme o que constatamos nas Doze Tradições de A.A., “o anonimato é o alicerce espiritual das nossas Tradições”. Cada membro é lembrado a colocar “os princípios acima das personalidades”.

Muitos de vocês talvez queiram saber o que essa palavra “ego” significa. Há tantas definições, que primeiramente é preciso esclarecer a natureza da necessidade da redução do ego.

Esse ego não é um conceito intelectual, mas sim um estado de sentimento – uma sensação de importância – de ser “especial”. Poucas são as pessoas capazes de admitir em si mesmas a necessidade de serem especiais.

Muitos de nós, entretanto, podem reconhecer ramificações desse procedimento e colocar uma denominação própria para elas.

Deixem-me ilustrar:

Nos primeiros dias de A.A., fui consultado a respeito de um problema sério que estava preocupando um grupo local.

O costume de se comemorar um ano de sobriedade com um bolo de aniversário teve como conseqüência o fato de que alguns vieram a se embriagar, pouco tempo depois da comemoração. Parecia que alguns não podiam agüentar a prosperidade. Pediram a minha posição a respeito; a favor do bolo, ou contra o bolo de aniversário.

Caracteristicamente, escusei-me por não pode ajudá-los, não por modéstia, mas por ignorância. Cerca de três ou quatro anos depois, o próprio A.A. forneceu-me a resposta. O grupo não teve mais esse problema, segundo o que disse um membro:

“Nós ainda comemoramos, mas agora um ano de sobriedade tornou-se lugar comum. Nenhum de nós precisa ter mais a menor preocupação com isso”.

Uma olhada ao que aconteceu nos mostra o egoísmo, como eu o vejo, em ação. Em primeiro lugar, a pessoa que esteve sóbria por um ano inteiro, tornou-se um exemplo, algo para se admirar. Seu ego naturalmente se expandiu, seu orgulho floresceu e qualquer diminuição de egoísmo, obtida anteriormente, desapareceu. Tendo sua confiança renovada, acabou por tomar um drinque.

Tinha sido considerada especial e reagiu de acordo. Depois, essa parte especial se esvaiu. Nenhum ego é alimentado, estando na condição de lugar comum, e desse modo, o problema de ego elevado desaparece.

Hoje A.A., na prática, está bem consciente do perigo de se bajular alguém com honrarias e louvores. Os riscos da realimentação do ego são reconhecidos.

A frase “servidor de confiança” constitui-se num esforço para manter baixo o nível do egoísmo, embora alguns servidores tenham problemas nesse particular.

Agora, vamos dar uma olhada mais acurada nesse egoísmo que causa transtornos. Os sentimentos, associados a esse estado da mente, são de fundamental importância na compreensão do valor que tem o anonimato para o indivíduo – o valor de colocá-lo na condição de um mero participante do contingente da humanidade.

Certas particularidades demonstram esse ego, que vê a si próprio como algo especial e, por isso mesmo, diferente. É elevado em si mesmo, e propenso a manter, igualmente, suas metas e suas fantasias em alto nível. Menospreza àqueles que define como sendo vermes que rastejam penosamente, sem o ardor e a inspiração daqueles iluminados pelos ideais de tirar pessoa do lugar comum, prometendo a elas melhor sorte para o futuro.

Frequentemente, esse mesmo ego funciona ao contrário. Ele tira a esperança do homem, com suas falhas e fraquezas, e desenvolve um cinismo que amarga o espírito e faz de seu possuidor um realista excêntrico que nada acha de bom nesse vale de lágrimas.

A vida nunca obtém dele resultados plenamente satisfatórios, e ele vive uma existência amargurada, agarrando-se ao que puder no momento, mas nunca realmente participando do que acontece ao seu redor. Ele anseia por amor e compreensão e discursa incessantemente sobre o seu senso de alienação em relação àqueles que o cercam.

Basicamente, ele é um idealista frustrado, sempre voando alto e aterrisando baixo. Esses dois tipos de egoísmo confundem humildade com humilhação.

A seu modo as crianças atuam como bons terapeutas ou “redutores de cabeças”. São hábeis alfinetadores de egos inflados, ainda que seus propósitos não sejam, propriamente, terapêuticos.

A.A. teve seu começo justamente em uma tal alfinetada. Bill W. sempre se refere à sua experiência no Hospital Towns como uma “deflação em grande profundidade”, e naquela ocasião ouviram-no dizer que seu ego havia levado uma “surra dos diabos”.

A.A. nasceu daquela deflação e daquela surra.

Está muito claro que a sensação de ser especial, de ser “algo” tem seus perigos e suas desvantagens para o alcoólico. Já o oposto, ou seja, aquele que está fadado a ser um “nada”, tem pouca motivação. O indivíduo vê-se diante da possibilidade de ser algo e beber, ou de ser nada e também beber, por frustração.

O dilema, muito compreensível, reside na falsa impressão sobre o chamado oposto, o que está prestes a ser um “nada” e não vê alguma compensação. A característica de ser um “nada” não é facilmente desenvolvida.

Vai contra todos nossos anseios por uma identidade, por uma existência significativa, plena de esperanças e perspectivas. Tornar-se um “nada” parece ser uma forma de suicídio psicológico. Agarramo-nos ao nosso “pouco” com todas as forças de que somos capazes. A idéia de ser um “nada” é simplesmente inaceitável. Mas, o fato é que, se o indivíduo não aprender a agir como um nada, não conseguirá compreender que ele é apenas um mero cidadão do dia a dia, misturado na raça humana e, assim, estará sendo humilde perdido na multidão e essencialmente anônimo. Quando isso puder acontecer, o individuo terá conseguido muito a seu favor.

As pessoas com o “nada” em vista, podem relaxar e resolver seus negócios calmamente, com o mínimo de transtorno e de preocupação. Podem, até, curtir a vida da forma que ela vier.

Em A.A., isso é conhecido como programa das vinte e quatro horas, que significa, efetivamente, não ter o indivíduo o amanhã em mente. Ele consegue viver o presente encontrando a satisfação aqui e agora; não fica mais se acotovelando por aí. Sem preocupações, a pessoa se torna receptiva e mantém a mente aberta.

As mais importantes religiões estão cônscias da necessidade do nada, para a-quele que pretende alcançar a graça. No Novo Testamento, Mateus (18-3) cita estas apalavras de Cristo:

“Em verdade vos digo; se não vos transformardes, e não vos fizerdes como meninos, não entrarão no Reino dos Céus. Por isso, todo aquele que se tornar pequeno como este menino, esse há de ser o maior no Reino dos Céus”.

Zen ensina a libertação pelo nada. Uma série de cenas com o intento de mostrar a evolução da natureza do homem termina por um círculo no interior de um quadrado. O círculo representa o homem em um estado de “nada”. O quadrado representa a conformação das limitações com as quais o homem precisa aprender a conviver.

Nessa concisa afirmação: “Nada é fácil, nada é difícil”, e outras mais, Zen também acrescentou a modéstia, a humildade e a graça.

Anonimato é um estado de espírito de grande valor para o indivíduo, na manutenção da sobriedade. Não obstante eu reconheça sua função protetora, sinto que qualquer discussão a respeito seria unilateral, se falhar na ênfase do fato de que a manutenção de um sentimento de anonimato, um sentimento de “eu não sou nada de especial”, é a garantia fundamental de humildade, e, consequentemente, a verdadeira salvaguarda contra futuros problemas com relação ao álcool. Esse tipo de anonimato é verdadeiramente um bem precioso.

Fonte: Revista Vivência n° 43 – Setembro/Outubro 1996

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