Reflexão do dia 15 de novembro
MANUTENÇÃO VITAL
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No final de minha carreira de bebedeiras...

..., havia ameaçado pacientes, embriagara-me no serviço e pensava em matar alguém..."

Eu sou uma alcoólica. Sou também uma enfermeira graduada, devidamente credenciada, uma mulher solteira com muitas atividades, que me dão muito prazer. Mas nem sempre foi assim.

Estou sóbria em Alcoólicos Anônimos, há pouco mais de cinco anos, e estes têm sido os anos mais felizes da minha vida. Antes de procurar A. A. eu já tinha passado um ano abstêmia do álcool por causa do medo de mais um ataque de "delirium tremens". Havia jurado que nunca mais tomaria qualquer bebida, porque não poderia sair ilesa de mais uma bebedeira, como a que havia acontecido na semana entre o Natal de 1977 e Ano Novo de 78.

Na manhã de Natal, cedinho, dirigindo bêbada e além disso drogada, derrubei um poste telefônico e acabei por completo com o meu carro - e não era a primeira vez que isto acontecia. Xingando a todos e sem cooperar o mínimo no pronto-socorro (e ainda vestindo o meu uniforme de enfermeira), recusei-me a receber ajuda até a manhã seguinte, quando fui internada sem álcool e outras drogas, com o comportamento já alterado.

Naquela época, segundo o pouco que consigo lembrar, bebia todos os dias e lançava mão de quaisquer remédios que conseguisse obter, com ou sem receita médica. Quando recebi alta do hospital, minha irritabilidade, nervosismo e tremores aumentaram, a ponto de se transformarem em alucinações, acompanhadas de um horror crescente diante do que eu estava passando.

Não podia retornar ao hospital onde tinha o meu emprego, e minha família já não me agüentava mais, por causa do meu comportamento anti-social. Durante mais um ano, inteirinho, continuei a chegar ao fundo do poço, utilizando-me de diversos remédios e drogas. Minha recuperação teve início, quando deixei de tomar remédios e comecei a esforçar-me ativamente para melhorar: mas, o início da minha recuperação aconteceu quando assisti pela primeira vez a uma reunião de Alcoólicos Anônimos.

Eu havia sido uma criança acanhada, supersensível, obesa e insegura. Havia procurado consolo nos livros e no papel de "mamãezinha". Lembro-me de como me senti importante, certa vez, quando meu pai permitiu que eu desse uma "bicada" ou duas na bebida dele. Eu gostava do efeito dessas "bicadas". Meu primeiro apagamento e inconsciência alcoólica ocorreram quando eu tinha treze anos. Parecia que o único meio de desligar o meu sentimento de inferioridade e a consciência que me atormentava era o caminho da bebedeira.

Na escola era considerada uma colega bacana, que "daria até a camisa" a qualquer pessoa necessitada. Ser agradável a outras pessoas foi um comportamento que me causou muitas frustrações, principalmente na minha profissão, até que aprendi a dizer não àquela primeira dose.

Para mim, vestir o uniforme branco e a touca, era o mesmo que dar rédea solta à Enfermeira-Maravilha. Quando tirava a touca e o uniforme, estava novamente envolvida por completo na contra-cultura dos hippies. E para combatê-la dentro de mim, precisava ser a própria Florence Nightingale. Tinha sempre muita raiva da incompetência que encontrava em todos que me rodeavam, convencida de que era a única pessoa que realmente fazia o trabalho necessário.

Com toda aquela ira, e com a idéia de que eu era mártir, tinha que embriagar-me para abrir uma válvula de escape. Precisava do emprego para sustentar os meus vícios, e a enfermagem era a única coisa respeitável que eu tinha.

Ao final da minha carreira de bebedeiras, que durou doze anos, havia ameaçado pacientes, embriagara-me em serviço, pensava em matar alguém, distribuíra drogas a crianças e adolescentes, tomava várias overdoses, abortara duas vezes, já havia desmaiado bêbada várias vezes nos bares, e ainda vestindo uniforme. Andava fedendo e havia enganado a minha melhor amiga ao "transar" com seu marido. Dirigia automóveis quando estava bêbada demais até para andar. Acabei com diversos carros e muitas vezes fui parada pela polícia, sem lembrar-me de coisa alguma.

Tinha profundo desprezo pelos bêbados, porque eles me mostravam claramente o que eu era por trás da minha fachada - manipuladora, desonesta, medrosa e solitária. Passei a maior parte da minha vida aparentando algo que realmente não era. Não sabia, até que fiquei sóbria, que sou precisamente a pessoa que sempre quis ser.

Em A. A. mostraram-me como mudar realmente de dentro para fora e não apenas as aparências. São pessoas que agora riem de seus problemas, choram de alegria e gostam de viver.

Hoje, trabalho como enfermeira de vôo, integrando uma equipe de salvamento e remoção de doentes por helicóptero, tendo oportunidade para realização e crescimento profissional que eu não teria condições de aproveitar se não estivesse sóbria. Tenho uma reputação de honestidade, sobre a qual nem sempre sou lá muito modesta. A beleza da sobriedade é a capacidade de admitir meu erro quando magôo alguém, pelas palavras ou pelas ações, e a partir daí, tomar as atitudes necessárias. Quando bebia, tinha medo de que alguém fosse descobrir que eu havia cometido erros; por isso, era incapaz de aprender a partir dos erros que havia cometido, e assim continuava a repetir todos aquelas coisas que não funcionavam.

Agora posso aprender com as pessoas que surgem na minha vida e crescer com elas, sem exigir delas ou de mim mesma que se cumpram expectativas injustificadas. Retornei à igreja que havia freqüentado quando criança, agora imbuída de uma fé adulta, e desempenho ativamente, não só os serviços em A. A., como também várias outras funções cívicas e profissionais.

Um campo em que tenho que lutar continuamente, dentro do programa, comigo mesma, é o da capacidade de enxergar-me de modo realista nas relações com as pessoas que me cercam. As tarefas mais difíceis para mim têm sido, provavelmente, as que me levam a adquirir auto-estima e auto-aceitação. Saindo das adversidades, em muitas situações de constrangimento, venho encontrando respeito próprio e paz de espírito, quer seja aprovada pelos outros, quer não.

Sou muitíssimo grata pela dádiva do amor-próprio honesto. Sempre quis ser capaz de ajudar aos outros, de ser realmente útil; entretanto, por causa das minhas necessidades paralisantes, tornava-me incapaz. Enfim, livre dessas necessidades, estou vivendo uma vida que jamais sonhara ser possível, e a cada dia que passa, percebo com maior clareza que a minha única limitação estava na minha falta de confiança e de fé. Saindo de um cadáver ambulante, surge uma mulher capaz, completa e dedicada.

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